terça-feira, 5 de março de 2013

Sentido contrário


 Hoje fui no sentido contrário ao que costumo ir para sair da estação. Pensei comigo mesma que aquilo me incomodava. Eu devia temer algo insignificante, que nem mesmo sei o que é.
 Não doeu fazer isso. Ao contrário de acontecimentos dos últimos tempos, que me levaram aos pensamentos reflexivos durante meu trajeto de volta pra casa depois de um exaustivo dia.
 Sentimentos absurdos tomaram conta do meu ser na última semana, e acabei me deixando levar. Pensava merecer um pouco de auto-piedade, mesmo ciente de que aquilo não me levaria a lugar algum. Alguma hora eu teria que erguer a cabeça e seguir em frente. No passado isso era mais simples, e ao mesmo tempo complicado. Digamos que eu tinha força e motivação para seguir em frente, mas olhava para os lados em dúvida do caminho que devia seguir. Quer dizer, haviam tantos!
 Eram atalhos e mais atalhos para, o que hoje percebo, lugar nenhum. Só que era mais fácil, mais confortável, menos humilhante e menos assustador. E eu os escolhia. Erro após erro, eu continuava escolhendo-os, como se não soubesse que o caminho certo estava bem na minha frente, com uma seta luminosa apontando pra ele.
 Era medo? Sem dúvidas. Medo de crescer e aparecer. Dar a cara à tapa pra vida não me parecia uma boa ideia. Coisas incríveis acontecem com pessoas especiais, por que eu seria uma delas?
 Eis a desculpa perfeita, e novamente a auto-piedade.
 Só que as coisas mudam, e isso leva um tempo. Querendo ou não, um dia a vida acaba com a gente, esmigalha nosso orgulho, às vezes nosso coração, e dói. Dói pra caramba! Ouvimos sobre essa dor, mas nunca acreditamos que algum dia chegaremos a senti-la - especialmente se prefere se manter na zona de conforto por um longo tempo. E quando a gente sente é indescritível. Só Deus sabe, e nossos pensamentos não passam de testemunhas apavoradas.
 Mas tenho uma boa notícia: isso passa. Por mais cicatrizes que aquela dor nos deixa, ela não pode ser forte o bastante para nos prender ao medo. Alguma hora sentimos a necessidade de sair da zona de conforto. O cômodo torna-se incômodo muito fácil, e o medo não some, só é ultrapassado.
 Ainda sim, não sou fã do frio na barriga ou das noites de insônia causadas pela ansiedade. Só que isso muda a gente, e mudar é, provavelmente, uma das maiores vantagens do ser humano. Só fica estagnado quem quer, porque as mudanças são benéficas, assustadoras, mas ao mesmo tempo empolgantes. Poder abrir e visualizar o leque de opções diante de nossos rostos, antes tão cansados e abatido pelas lutas diárias, é uma dádiva.
 Passei a ignorar os atalhos e optei por aquele caminho à minha frente, com a tal seta luminosa adiante, sabe? Têm sido incrível. Talvez eu seja mesmo especial, talvez não passe de mais uma pessoa comum, ainda com dúvidas e temores. Mas posso dizer que, talvez - e isto é mais provável do que realmente parece - eu tenha encontrado meu caminho.
 Bastou mudar a direção, no sentido contrário do que eu costumava achar ser o mais fácil.
 É quando colocamos os pés no chão que nossos objetivos saem do campo dos sonhos e passam a caminhar rumo à realidade. A realidade que sempre sonhamos.


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