quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Praticidade a là Schwarzenegger
Quando eu era criança e via as coisas mudando drasticamente, começava a pensar que aquilo era o fim do mundo, ou pelo menos o começo do fim. Fico imaginando como teria sido se tivesse levado a sério o "Exterminador do Futuro". É possível que ficaria aterrorizada e queimaria todos os bips do meu pai - sabem do que estou falando.
Só que o "fim do mundo" não passava de avanço, especialmente avanço tecnológico. Teria sido mais interessante - ou assustador - acreditar que o mundo acabaria devido ao descontrole das máquinas. O velho clichê da criação voltar-se contra o criador.
O tempo passou bem rápido e de lá pra cá já ouvi e sobrevivi a mais fins de mundo que alguém conseguiria em uma ficção. Mas o avanço ainda me assusta um pouco. Justo eu que considero "praticidade" uma de minhas palavras preferidas.
Acredito que o que me assusta é ter toda essa disponibilidade de tempo e economia de esforço disfarçados através dos produtos "revolucionários" da polishop ou dos robôs que podem substituir tão bem o trabalho humano que o fariam até melhor do que nós.
E a partir daí fica difícil não tentar combater a sensação de que somos tão substituíveis que nossa existência não passa de mera formalidade. A regra é clara: cresça, estude, arranje um emprego, forme uma família, se aposente e continue se rendendo à gente mais poderosa do que você. E eu nem mencionei os detalhes sórdidos - se possível faça isso antes dos 30.
Deveria culpar o senso comum por tamanha imposição sobre como devo levar a minha vida, me revoltar contra o sistema e tudo mais. Porém, eu faço parte dele. E assim como você, eu também sonho com o emprego perfeito, o amor da minha vida e ás vezes até em formar uma família - porque ninguém quer viver sozinho. Da mesma maneira como desejo pela boa aparência que o currículo da vida exige nas entrelinhas. Deve ser porque nossos sonhos não passam dos reflexos do sonhos dos outros. Nós não os originamos, fomos simplesmente inspirados por pessoas que foram capazes de imaginá-los em primeira mão. E se a nossa vontade é, de fato, apenas melhorar todo o processo, restará algum espaço para as coisas realmente novas?
Nem falo tanto de smartphones mais interessantes ou carros que, sei lá, se transformam em "Transformers". Mas se conseguimos tanto avançar nas mais diversas áreas, porque é que a verdadeira novidade seria dar prioridade à coisinhas como lealdade, amor e compaixão? Porque se há realmente algo bom em não ser tão racional como robôs são, é exercer a parte boa dos sentimentos, ao invés de explorar com tanto fervor o lado ruim deles.
O meu medo de criança era, a princípio, o de ver tudo se acabando diante dos meus olhos numa sequência de eventos destrutivos e dolorosos. Agora, quase beirando aos 21, eu percebo que o fim do mundo já está aqui, e não porque estamos muito à frente de nosso tempo quando se trata de tecnologia, mas porque nós mesmos nos robotizamos.
Felizmente, não tive coragem de vender minha alma em troca de mais praticidade, mas de quem é a garantia de que já não estamos fazendo isso sem nem sequer percebermos?
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