quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

As dores de crescer



Alessia Cara foi uma bela novidade pra mim no início de 2018.

A primeira vez que ouvi falar dela foi no refeitório da escola de au pairs localizada em Tarrytown, New York. Eu esperava outras garotas que acabara de conhecer quando uma delas, muito gentilmente, disse que eu me parecia muito com a tal da Alessia.

Eu não era muito chegada no cenário atual da música pop e o nome não me era nada familiar. Perguntei tentando ser divertida: “E ela é bonita?”, seguida de um: “Ah com certeza! Ela é linda”.

Fiquei sabendo mais tarde que Alessia Cara é uma cantora canadense, isso meio que já me fez gostar dela - tem algo sobre os canadenses muito interessante que nos faz gostar de todos eles automaticamente. A foto no Google mostrava algumas pequenas semelhanças: o mesmo cabelo cacheado e desgrenhado, os olhos amendoados, a cor da pele. É, até que éramos meio parecidas.

Talvez por isso eu dei uma chance às suas músicas. Gostei de algumas e uma delas me levou a assistir Moana - também descobri que na Itália tiveram que mudar o nome da personagem principal porque era o nome da atriz pornô mais famosa daquelas áreas, mas isso é irrelevante.

A mensagem de suas músicas me lembravam de todas as estrelas Disney que ousavam dizer que tínhamos que nos aceitar como somos. Pensar nisso hoje me faz revirar os olhos considerando em quantas dessas pessoas acabaram em caminhos destrutivos justamente por terem dificuldades em se aceitar. Bem, acho que todos nós temos nossas lutas secretas.

Mas Alessia transmitia essa mensagem de forma autêntica. Ela parecia desconfortável dentro de um padrão midiático, como se estivesse pagando um pequeno preço para poder compartilhar a sua paixão pela música.

Seu último álbum, “The Pains of Growing” é uma obra prima. Em uma entrevista onde ela parecia muito relaxada sem maquiagem, vestindo moletom e com os cabelos presos em um rabo de cavalo simples, ela comentou sobre como foi desafiante escrever sozinha as músicas deste álbum. De fato, no começo da canção que leva o nome do disco uma voz masculina diz: “You’re on your own, kid” (você está por sua conta, garota).

Eu gostaria de poder tatuar no meu corpo a frase: “But still the growing pains they’re keeping me up night” (Mas ainda as dores de crescer me mantém acordada à noite).

Eu li “Sharp objects” de Gillian Flynn, e nós temos diante de nós uma personagem que sente a necessidade de se cortar. Seu corpo é uma tela de palavras aleatórias espalhadas que parecem arder sempre que ela se encontra em algum tipo de situação que lhe traz alguma recordação. Eu nunca fui do tipo que achava automutilação muito atraente, mas minha forma aparentemente saudável de gravar coisas em meu corpo parece ser a tatuagem.

Você nunca me verá com o corpo coberto delas, mas você pode encontrar algumas frases espalhadas estrategicamente por ele. Duas pra ser mais exata.

A primeira nas costas, em meu ombro esquerdo. A frase de “Gravity” de John Mayer repousa sobre minha pele como uma oração: “Keep me where the light is” (me mantenha aonde a luz está). Eu ainda me lembro do primeiro pensamento a passar por minha mente quando decidi fazê-la. John Mayer repetia essa mesma frase na arena do Anhembi no que eu posso dizer que foi o melhor show da minha vida. Eu não queria esquecer de como me senti.

A segunda mais recente foi feita em New Orleans. Sentada numa praça com duas amigas da África do Sul, o calor queimando sob minhas costas e o suor escorrendo por meu rosto, eu disse: “Queria fazer algo diferente pra me lembrar dessa viagem. Tipo, não sei, uma tatuagem?”. Eu sabia que precisaria de uma dose extra de coragem pra isso, mas quando se tem amigas como Ninian e Nadine, você só precisa ir na onda.

Se Nadine não tivesse tirado o celular e procurado imediatamente um estúdio de tatuagem pelas redondezas eu provavelmente teria mudado de ideia 10 minutos depois. Mas não mudei.

Depois de irritar bastante o tatuador com minha falta de certeza a respeito de onde e como seria a tatuagem, eu acabei optando pela primeira opção que ele havia sugerido. Agora, uma nova frase repousava sob minha pele ainda úmida pelo calor: “Be you, bravely”.

Eu sempre optava por fazer tatuagens em lugares difíceis de se ver. Era minha maneira de esquecer delas por um tempo até a surpresa de lembrar que, “Ops, eu tenho uma tatuagem!”. Era também uma forma de evitar me arrepender. Por isso essa havia sido feita em meu braço direito, num ponto em que só poderia ser vista por mim se girasse o braço.

Aquelas marcas eram minha maneira de lembrar que em alguns momentos viver não era sempre uma linha linear entediante. Algumas vezes acabávamos em lugares inusitados com pessoas extraordinárias, e isso valia a pena.

Mas agora eu passava por um momento diferente. A “transição” que eu fazia questão de citar nas minhas cartas de apresentação na tentativa de parecer sedenta por desafios. Eu sentia as dores de crescer todos os dias, e assim como Alessia, elas me mantinham acordada todas as noites.

O problema com esse tipo de dor é que ela é difícil de ser explicada sem que você pareça imaturo. Meu cuidado ao me abrir com pessoas próximas a respeito está sempre em não parecer apavorada - como de fato estou - ou imatura. Não paira sob mim uma síndrome de Peter Pan, mas anseio para que as coisas fossem mais simples.

Estava assistindo “The Good Place” esses dias e eles explicavam algo sobre como funcionava o programa de pontos na série para que os seres humanos pudessem entrar no céu ou serem simplesmente destinados ao inferno. Michael, um dos personagens principais que foi de demônio torturador a amigo e advogado dos humanos perdidos, acabara de descobrir que o sistema de pontos era injusto. Segundo ele, com o passar dos anos o mundo ficava cada vez mais complicado e ser humano era muito mais complexo. Cada escolha que fazíamos continha uma significante quantidade de consequências ruins que nos faziam perder pontos, por mais benéfica que a primeira ação fosse.

Crescer pra mim me parece tão complicado quanto este sistema de pontos. Acho que Alessia falou por todos nós quando disse:

Used monsters as an excuse to lie awake
(usava monstros como desculpa para ficar acordada)
Now the monsters are the ones that I have to face
(agora os monstros são os que eu tenho que encarar)
No band-aids for the growing pains”
(sem band-aids para as dores de crescer)

É, sem band-aids para as dores de crescer.

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