Querido, eu observei
de minha janela todas as estações passarem. A mesma janela que um dia
observamos juntos, eu maravilhada com a vista e você me achando boba por isso.
Dalí vimos o sol nascer e a noite cair. Você envolvia seus braços ao redor de
minha cintura e cochichava coisas insanas em meu ouvido. Lembro de sua barba
mal feita pinicando meu rosto, seu perfume amadeirado sob minha pele e seus
lábios macios tocando um de meus ombros.
A visão que antes me fascinava já não fazia
mais sentido para mim. É, eu observei as estações passarem. O céu azul e o
calor do verão, as folhas caindo no parque em frente, tendo o céu nublado como
testemunha. Eu vi as flores colorirem todas aquelas árvores, crianças colocando-as
por sob a orelha e garotas sorrindo ao serem recebidas com uma das flores que acabara
de cair de uma das árvores. E finalmente vi a neve cobrir todo o quarteirão. Os
flocos caírem no vidro e o ar quente de minha respiração manchando-o.
E nada daquilo me tocou.
Você foi embora da minha vida e deixou seus
restos espalhados pela casa. Restos invisíveis, impossíveis de serem jogados
fora. Você deixou seus malditos fantasmas por todo o lugar. O seu cheiro ainda
está impregnado nos lençóis. Eu os lavei, mas ele continua ali. Pensei em tacar
fogo, mas sejamos honestos, era esse cheiro que me fazia ter bons sonhos à
noite. Que me impedia de me sentir vazia durante minhas oito horas de sono.
A TV continua no mesmo canal da última vez que
esteve aqui e perdeu o controle. Eu não tenho ligado-a muito nos últimos meses.
Você sabe como eu odeio a TV e suas artimanhas de jogar com nossas mentes. Mas
você deixou justo no canal que eu menos odiava, então quando quero sentir você
perto está sempre passando “Casablanca”. Coincidência?
Tornou-se uma doença. Você me deixou doente. Eu já estava assim quando decidi tirar você
da minha vida, crente que essa era a melhor solução para voltar à
racionalidade, à vida real, onde eu era machucada mas sabia como me defender.
Mas as coisas pioraram. Sim, querido, você era a doença, mas também era a cura.
Agora meus dias são vazios, meus sorrisos são
falsos. Eu digo que estou bem e faço questão de parecer ótima, mas por dentro estou
quebrada. Minha carreira bem sucedida não foi o bastante para me fazer feliz
como sempre imaginei que seria. E tudo porque você mudou a minha definição de
feliz no momento em que sorriu pela primeira vez em minha direção. Você a mudou
de tal maneira que ela tornou-se utópica com você longe.
Então, sim. Eu te odeio. Você me deu tudo, mas
também me tirou quando foi embora. Ainda está com a metade de meu coração em
suas mãos. A melhor parte, a que continua batendo forte e vividamente. Você me
mostrou uma alegria quase ilegal e me fez pensar que ela nunca iria embora.
Além disso, continua me assombrando com seus vestígios inúteis em cada canto
desta cidade. E como se não bastasse você ainda faz eu me odiar. Eu, que consegui tudo o que sempre quis, e sem você ao
meu lado.
Mas sabe o que é pior? O pior é estar aqui
diante dessa janela vendo as estações passarem e desejando mais do que tudo
trocar tudo à minha volta por apenas um minuto com você aqui, com suas mãos
envolvendo minha cintura e sua barba pinicando meu rosto. Desejando uma última
chance de poder lhe dizer aquilo que meu orgulho nunca permitira antes:
Eu
te amo, meu amor.

Um comentário:
NOSSA... LINDO, LINDO e LINDO.
Dany, meus parabéns. Se superando a cada dia.
Continue assim.
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