sábado, 28 de janeiro de 2012

As estações


  
 Querido, eu observei de minha janela todas as estações passarem. A mesma janela que um dia observamos juntos, eu maravilhada com a vista e você me achando boba por isso. Dalí vimos o sol nascer e a noite cair. Você envolvia seus braços ao redor de minha cintura e cochichava coisas insanas em meu ouvido. Lembro de sua barba mal feita pinicando meu rosto, seu perfume amadeirado sob minha pele e seus lábios macios tocando um de meus ombros.
 A visão que antes me fascinava já não fazia mais sentido para mim. É, eu observei as estações passarem. O céu azul e o calor do verão, as folhas caindo no parque em frente, tendo o céu nublado como testemunha. Eu vi as flores colorirem todas aquelas árvores, crianças colocando-as por sob a orelha e garotas sorrindo ao serem recebidas com uma das flores que acabara de cair de uma das árvores. E finalmente vi a neve cobrir todo o quarteirão. Os flocos caírem no vidro e o ar quente de minha respiração manchando-o.
 E nada daquilo me tocou.
 Você foi embora da minha vida e deixou seus restos espalhados pela casa. Restos invisíveis, impossíveis de serem jogados fora. Você deixou seus malditos fantasmas por todo o lugar. O seu cheiro ainda está impregnado nos lençóis. Eu os lavei, mas ele continua ali. Pensei em tacar fogo, mas sejamos honestos, era esse cheiro que me fazia ter bons sonhos à noite. Que me impedia de me sentir vazia durante minhas oito horas de sono.
 A TV continua no mesmo canal da última vez que esteve aqui e perdeu o controle. Eu não tenho ligado-a muito nos últimos meses. Você sabe como eu odeio a TV e suas artimanhas de jogar com nossas mentes. Mas você deixou justo no canal que eu menos odiava, então quando quero sentir você perto está sempre passando “Casablanca”. Coincidência?
 Tornou-se uma doença. Você me deixou doente. Eu já estava assim quando decidi tirar você da minha vida, crente que essa era a melhor solução para voltar à racionalidade, à vida real, onde eu era machucada mas sabia como me defender. Mas as coisas pioraram. Sim, querido, você era a doença, mas também era a cura.
 Agora meus dias são vazios, meus sorrisos são falsos. Eu digo que estou bem e faço questão de parecer ótima, mas por dentro estou quebrada. Minha carreira bem sucedida não foi o bastante para me fazer feliz como sempre imaginei que seria. E tudo porque você mudou a minha definição de feliz no momento em que sorriu pela primeira vez em minha direção. Você a mudou de tal maneira que ela tornou-se utópica com você longe.
 Então, sim. Eu te odeio. Você me deu tudo, mas também me tirou quando foi embora. Ainda está com a metade de meu coração em suas mãos. A melhor parte, a que continua batendo forte e vividamente. Você me mostrou uma alegria quase ilegal e me fez pensar que ela nunca iria embora. Além disso, continua me assombrando com seus vestígios inúteis em cada canto desta cidade. E como se não bastasse você ainda faz eu me odiar. Eu, que consegui tudo o que sempre quis, e sem você ao meu lado.
 Mas sabe o que é pior? O pior é estar aqui diante dessa janela vendo as estações passarem e desejando mais do que tudo trocar tudo à minha volta por apenas um minuto com você aqui, com suas mãos envolvendo minha cintura e sua barba pinicando meu rosto. Desejando uma última chance de poder lhe dizer aquilo que meu orgulho nunca permitira antes:
Eu te amo, meu amor.

Um comentário:

Unknown disse...

NOSSA... LINDO, LINDO e LINDO.
Dany, meus parabéns. Se superando a cada dia.
Continue assim.