Era meio dia quando me encontrei
parada em um ponto de ônibus cujos ônibus recusavam-se a parar. Levei numa
boa, afinal eu não estava à espera deles. Aquela era só uma de minhas antigas
táticas de esperar alguém sempre que chego cedo demais para algum compromisso.
É claro que eu deveria estar puta
– de fato, fiquei por quase 40 minutos enquanto tentava entender as complexas
concepções de Thomas Hobbes em minha frustrante tentativa de parecer a garota
culta no ponto de ônibus desativado. Estava calor, eu estava adiantadíssima,
caminhoneiros soltavam cantadas ridículas – como se eu esperasse por isso – e para
completar, era feriado. Pois é.
Não que eu tivesse grandes planos
para o feriado. Não era como se estivessem chovendo convites para saídas em meu
Facebook – e se estivesse eu provavelmente os ignoraria. Mas apesar disso tudo,
eu permaneci tranquila e paciente. A verdade é que eu estava apenas a alguns
passos do local onde eu colocaria fim às minhas dúvidas - Eu deveria mesmo ser
jornalista? Coloco o plano B em prática?
O letreiro, aos meus olhos,
sedutor, indicava a porta de um mundo que eu imaginara desde a adolescência: “O
Estado de S. Paulo”. Pois é, eu acabara de pisar sob aquele que provavelmente
havia sido fruto de um desejo antigo de trabalho, ou melhor dizendo, de vida.
Mas apesar disso, a ansiedade não bateu ponto para fazer com que o nervosismo
me dominasse. Os dilemas que decidiriam minha vida não me atormentaram. Era só
mais um dia comum, fazendo um trabalho comum, em que eu conheceria uma pessoa
comum.
Claro que na visão deturpada de
aprendiz, um jornalista é praticamente um astro de rock para alguém que deseja
seguir seus passos. Ou seja, eu.
Douglas, um dos editores da seção
“Divirta-se” do jornal Estadão, nos recebeu muito bem. Seu visual despojado de
jovem-adulto apreciador de boa música já chamou minha atenção. O cara é um descolado,
com certeza – pensei.
A ideia inicial era
entrevistá-lo, e a previsão de tempo era de no máximo vinte minutos, afinal eu
só havia elaborado oito perguntinhas básicas. Um mero engano! A história de
vida e suas motivações jornalísticas renderam pouco mais de uma hora e meia de
uma conversa considerada por mim uma das mais interessantes e instigantes que
já tive em toda a minha vida.
Se eu pudesse definir a
entrevista em uma palavra, escolheria “Inspiradora”. Dentro daquele prédio,
cercada de plaquinhas que indicavam diversos temas como “Economia” e “Política”,
eu me enxergava, não mais como uma garota cujos textos românticos dominavam seu
blog. Eu enxergava uma mulher independente, cheia de ideias, críticas e
argumentos, disposta a fazer com que o mundo os ouvisse, ou os lessem.
Então, na volta para casa percebi
que não era o espaço físico que havia despertado tamanha certeza do que eu
queria na vida. Era a ideia, a energia, as pessoas. Eu voltara para a época da adolescência
onde ansiava em tornar-me merecedora do título de uma profissão tão bela, sagaz
e inspiradora. A diferença é que antes o ‘sonho’ parecia distante demais para
algum dia tornar-se verdade, e agora se transformara em ‘objetivo’.
Eu já havia dado a largada e
começava a passar por etapas. Passei por momentos desanimadores? É claro.
Especialmente nas vezes em que abria o Word e passava horas observando aquela
folha branca, vazia, sem ideias, sem argumentos. Apenas com o medo da falta de
vocação rondando minha mente.
As dúvidas se calaram, o medo
tornou-se manipulável e deu espaço para uma força de vontade que eu não via já
fazia um tempo. E o mais importante, descobri algo que talvez mude minha vida
para sempre a partir deste exato momento: Ser jornalista não é apenas uma
profissão ou uma paixão, é o rumo que decidi seguir, definitivamente, na minha
vida.

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