Até você perceber que não é o carro, são as
propostas que ele traz. E não estou falando de atrair pessoas do sexo oposto
com devaneios exagerados a respeito da quantidade de gente que alguém consegue ‘pegar’
por ter um carro. Aquele carro bonito com cheiro de novo e bancos de couro
confortáveis representa alguma coisa. É como um convite à liberdade, talvez
pelo fato de a imagem atrativa de estar a 160 km/h numa estrada deserta com o
vento batendo no cabelo ser inevitável.
Ter aquele carro seria inaugurar uma nova fase
na vida. Significa pra você que no momento em que o dirigisse pela primeira vez
depois da burocracia toda de compra e venda você estaria financeiramente
estável. Mas não só isso. Para fazer uma compra como aquela obviamente teria de
haver um controle sob as finanças, mas também sob as emoções. Isso porque no
momento em que decidiu comprar o carro tudo pareceria se encaixar
perfeitamente. Ou seja, sua vida estaria indo de vento em polpa!
Os setores que antes pareciam uma repartição
mal administrada finalmente estariam em perfeita harmonia. Aquela história de
que uma parte de sua vida indo bem significava que outra parte ia mal se
tornara mito. Não era bem um estado de perfeição, ou sequer sorte. Era controle
sob a vida afetiva, profissional, financeira e espiritual.
As coisas não estariam simplesmente dando certo. Os problemas não sumiriam do nada. O
colega do trabalho continuava tentando te passar uma rasteira, as contas
continuariam chegando e as taxas aumentando, a ex de seu namorado ainda
insistia em manter contato, ou vai ver você sequer tinha um namorado! Apesar de
tudo, havia um esforço para que tudo ficasse bem. Sendo assim, as coisas
estavam arduamente dando certo.
O carro era só um detalhe. O brilho no seu
olhar ao vê-lo era um mero reflexo dos seus sonhos implorando para que você
fosse à luta. Era o despertar de algo indicando que a verdadeira felicidade
está na conquista. Aliás, nas infindáveis
conquistas.
O ônibus avança ao abrir o sinal, e observando
a vitrine de longe há uma decisão já tomada em seu consciente: atravessar a
estrada da vida sem pegar atalhos. Passar pelos espinhos, ser atingido pelos
galhos, constranger-se eventualmente, amar loucamente. Levar pés na bunda e
respostas grosseiras. Defender-se, lutar pelos próprios ideais, correr atrás dos
sonhos, superar os absurdos, conhecer a realidade sem conformar-se com tudo. E
fazer tudo isso a pé, de bicicleta, avião, helicóptero ou até mesmo de
patinete.
Literalmente falando, o carro só deixaria a
cena mais estilosa. O que já é por si só uma boa motivação para o pontapé
inicial: mudar de vida.
Daniela Souza quis comprar o tal carro, até se dar conta de que queria mesmo era mudar de vida.

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