sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vitrine das possibilidades

A vitrine está bem iluminada. Ali está um belo carro: modelo 2013, vermelho reluzente com designe atrativo e bancos de couro. Ali está você, sentada no ônibus enquanto alimenta um desejo repentino de comprar o tal carro. Algo na maneira como a loja o ilumina, ou a iluminação da própria loja, desperta em você uma nova perspectiva.
 Até você perceber que não é o carro, são as propostas que ele traz. E não estou falando de atrair pessoas do sexo oposto com devaneios exagerados a respeito da quantidade de gente que alguém consegue ‘pegar’ por ter um carro. Aquele carro bonito com cheiro de novo e bancos de couro confortáveis representa alguma coisa. É como um convite à liberdade, talvez pelo fato de a imagem atrativa de estar a 160 km/h numa estrada deserta com o vento batendo no cabelo ser inevitável. 
 Ter aquele carro seria inaugurar uma nova fase na vida. Significa pra você que no momento em que o dirigisse pela primeira vez depois da burocracia toda de compra e venda você estaria financeiramente estável. Mas não só isso. Para fazer uma compra como aquela obviamente teria de haver um controle sob as finanças, mas também sob as emoções. Isso porque no momento em que decidiu comprar o carro tudo pareceria se encaixar perfeitamente. Ou seja, sua vida estaria indo de vento em polpa!
 Os setores que antes pareciam uma repartição mal administrada finalmente estariam em perfeita harmonia. Aquela história de que uma parte de sua vida indo bem significava que outra parte ia mal se tornara mito. Não era bem um estado de perfeição, ou sequer sorte. Era controle sob a vida afetiva, profissional, financeira e espiritual.
 As coisas não estariam simplesmente dando certo. Os problemas não sumiriam do nada. O colega do trabalho continuava tentando te passar uma rasteira, as contas continuariam chegando e as taxas aumentando, a ex de seu namorado ainda insistia em manter contato, ou vai ver você sequer tinha um namorado! Apesar de tudo, havia um esforço para que tudo ficasse bem. Sendo assim, as coisas estavam arduamente dando certo.
 O carro era só um detalhe. O brilho no seu olhar ao vê-lo era um mero reflexo dos seus sonhos implorando para que você fosse à luta. Era o despertar de algo indicando que a verdadeira felicidade está na conquista. Aliás, nas infindáveis conquistas.
 O ônibus avança ao abrir o sinal, e observando a vitrine de longe há uma decisão já tomada em seu consciente: atravessar a estrada da vida sem pegar atalhos. Passar pelos espinhos, ser atingido pelos galhos, constranger-se eventualmente, amar loucamente. Levar pés na bunda e respostas grosseiras. Defender-se, lutar pelos próprios ideais, correr atrás dos sonhos, superar os absurdos, conhecer a realidade sem conformar-se com tudo. E fazer tudo isso a pé, de bicicleta, avião, helicóptero ou até mesmo de patinete.
 Literalmente falando, o carro só deixaria a cena mais estilosa. O que já é por si só uma boa motivação para o pontapé inicial: mudar de vida.





Daniela Souza quis comprar o tal carro, até se dar conta de que queria mesmo era mudar de vida.

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