domingo, 28 de abril de 2013

Traços escondidos


"A cultura neste país está morrendo", disse o senhor de 85 anos, com seu forte sotaque italiano, dono de uma galeria que pertencia ao pintor Henrique Manzo.
 Esta galeria está bem no coração de São Paulo, perto de minha casa, no bairro do Jaraguá. Passei em frente à este lugar várias vezes, sem nunca nem parar para prestar atenção no que diziam as palavras bem acima de sua porta de entrada. Eu não era a única.
 Hamlet - o senhor que mora ali - contava um pouco da história de São Paulo antes de toda esta onda industrial que a cidade passou a seguir desde a década de 50. Os quadros de Manzo preenchiam a história com belíssimas imagens de uma São Paulo livre do asfalto e do trânsito, coberta de verde e arte de meados do século XIX.
 Sentir esta sensação de viagem no tempo de forma tão real nunca foi tão interessante. E depois de toda aquela conversa, foi inevitável não refletir um pouco nas primeiras palavras daquele senhor: "A cultura neste país está morrendo".
 Nunca fui de ir à museus, e quando o fiz foi com a escola. Gosto de pensar que a exposição de "Corpos Pintados" na Oca do Ibirapuera que fui lá em meados de 2006, ou até mesmo o museu do Itaú numa exposição sobre moedas, tenham tirado todo o meu interesse por este tipo de coisa. Só que eu era uma criança e o conhecimento não era lá minha prioridade, como devia ser.
 Diante daquelas obras tão detalhadamente realistas de Henrique Manzo, me vi sendo conquistada pela arte de maneira inédita em minha vida.
 Minha teoria sobre a literatura e a arte segue uma linha básica de raciocínio: viagem no tempo e no espaço. Quando estamos diante do que não conhecemos, passamos a entender de forma muito clara que não precisamos nos conformar com apenas uma realidade e nem nos habituar a ela. Existe um mundo cheio de possibilidades, e consequentemente, de música, arte e belíssimas obras literárias bem diante de nossos olhos.
 O conhecimento é ilimitado justamente para que possamos construir o nosso. Penso que o pior erro que uma pessoa tende a cometer nestes tempos de músicas eletrônicas e redes sociais, é limitar sua visão de mundo, das pessoas, dos lugares e das belas artes. Opinião formada é para quem não desafia a si mesmo. A vida sem desafios, por sua vez, é uma vida vazia e sem graça. E convenhamos, de pessoas vazias e sem graça o mundo já está cheio.
 Vamos lembrar que ninguém quer ser apenas parte da multidão. É claro que uma poderosa minoria adoraria nos transformar em peças padrão, meros objetos que não pensam por si mesmo, mas em conjunto e de forma manipulada.
 A Galeria Narciza, aquela no Jaraguá que comentei logo no início do post, é uma prova de que as palavras daquele senhor estão a um passo de se tornarem realidade. Se deixarmos a história de nosso próprio país isolada e trancada por mera falta de interesse, quem dirá que algum dia nossa cidade já foi coberta de verde, já teve artistas talentosíssimos que não precisavam de computadores para fazer sua arte e já foi uma cidade coberta por riquezas naturais e culturais, cuja maior parte sequer existe mais hoje em dia?
 Ignorar nossa história é ignorar nossa própria identidade cultural. Estamos mesmo preparados para deixar o resto do mundo pensar que não passamos de um povo influenciável, cuja cultura pode ser transformada pelo primeiro gringo que aparecer?
 Bem, eu não estou.

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