sábado, 5 de abril de 2014
Atrevimento
Eu entendi. Você me deseja. Na verdade, deseja o meu eu secreto. Aquele que eu tinha sufocado por medo de fracassar. O mesmo que me permiti abrir mão por me sentir no direito de passar meses sofrendo por algo que eu nem mesmo lembro mais o que era.
Você deseja a vitalidade e a paixão pela vida que eu havia deixado jogada às traças no porão enquanto me inundava no aparente doce charme da solidão.
Não me leve a mal. É que meus pensamentos eram apenas meus. Não ter que dividi-los foi diferente de não querer fazê-lo. Mas gente como eu escolhe de forma rigorosa quem vai ser digno de escutar tamanha confusão emocional. Minha confusão emocional.
Eu quis sim te poupar de minhas particularidades sombrias, meus medos discretos e minha coragem sufocada. Dividir minha loucura me pareceu o caminho para que pudesse descobrir minhas vulnerabilidades. E eu não queria isso.
Queria que pensasse em mim como uma "pessoa difícil", que não gosta de perder tempo jogando conversa fora. Seria muito mais fácil se me visse como a chata metida à intelectual, que ouve música antiga e lê livros de sociologia só pra se exibir.
Mas você viu minhas particularidades. Você achou bonito o que eu sempre achei ridículo em mim, compreendeu que meus estilos musicais não passavam do meio para que eu chegasse ao meu refúgio da realidade. E por compreender que estava muito difícil para mim sonhar com os pés no chão, conformando-me apenas em manter aqueles deliciosos paraísos em minha imaginação, se dispôs a me provar que viver os sonhos não era uma utopia. Que eu podia - e devia - transformá-los em objetivos.
Acontece que eu passei a ousar de novo. Eu me atrevo a ser feliz porque você se atreveu a não desistir de mim.
Sinceramente, obrigada.
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