segunda-feira, 21 de abril de 2014

Uma boa dose de mim, por favor.


Eu nunca fiz parte da "turma legal" de lugar nenhum. Nem da escola, da igreja, da faculdade ou do inglês. Eu sempre fui a coadjuvante dos cenários da minha vida. Estive nos cantos observando, calculando e pensando em tanta coisa que me tornei muito boa na arte de me desligar do mundo por alguns instantes. Infelizmente, não é o tipo de coisa que faz as pessoas suspirarem de orgulho. Ser meio solitária não é divertido como estar entre a galera das piadinhas e das conversas fiadas, mas é, de certa forma, edificante.
 Assim como ficamos à espera de alguém disposto a nos livrar de nossa solidão, nos ocupamos com tanta atividade mental que nos ligam à questões filosóficas e interiores, carregadas pela busca de sentido, que a ideia de abrir mão deste tipo de personalidade não só é questionável, como também quase impossível.
 Perdi as contas de quantas vezes me esforcei para sufocar quem sou, me escondendo sob uma máscara forçada de extroversão. É claro que detalhes de minha introversão sempre acabam escapando de um jeito ou de outro, e isso ficava nítido quando, diante de uma conversinha fiada sobre o tempo ou música eletrônica, tudo o que eu fazia era soltar um sorriso que não chegava a atingir os meus olhos.
 Meu "sorriso de educação" sempre foi um matador de climas. Era a prova de que o papo não fluiria, a cantada não daria certo ou que o ponto de vista de fulano era carente de argumentos plausíveis - ou era apenas estúpido mesmo.
 Não importa o quanto eu tentasse ser alguém que, de fato, não sou, eu nunca poderia fingir paixão por algo ou alguém. O brilho de fascinação em meus olhos é aquele tipo raro que aparece vez ou outra pra provar que ainda existem coisas capazes de surpreender em um mundo cujas relações tornaram-se tão previsíveis. Um bom filme, com enredo intrigante e um final de fazer os olhos lagrimejarem. Uma frase bem colocada, com um timing perfeito e o impacto necessário para atingir os limites da razão e alcançar o coração. A harmonia saindo do violão ou o frenesi que só o tocar dos corpos, junto com o olho no olho e a química certa entre duas pessoas podem causar. Sabe como é, eventos memoráveis e, ainda que simples, intensos.
 Depois de passar tanto tempo sacrificando minhas vontades numa tentativa falha de ser quem as pessoas esperavam que eu fosse - seja para estar dentro de um padrão aceito socialmente ou para aparentar ter características necessárias para estar em um grupo em particular - eu achei que não seria ruim dar uma chance de ser, pela primeira vez, eu mesma.
 Foram anos me descobrindo e, ao mesmo tempo, me escondendo. É estúpido se apegar à crença de que não gostarão de quem somos antes mesmo que possamos nos dar a oportunidade de nos mostrar. Quando se escolhe ser verdadeiro consigo e com os outros, o preço a ser pago pode ser bem alto, geralmente porque crescemos acreditando que devemos nos moldar a todo tipo de personalidade que nos é imposta.
 Mas essa autenticidade, mesmo sendo tantas vezes dolorosa, nos ajuda a manter quem é verdadeiro por perto. Eu, por exemplo, não sou nem de longe a pessoa mais popular nos grupos sociais em que estou inserida. Também não tento ser. Ao me manter verdadeira, me sinto confortável dentro de certos limites que eu impus a mim mesma, como o de não tentar chamar a atenção para compensar uma carência ou entrar em um confronto para poder sustentar esta mesma tentativa de ser o foco.
 É claro que consegui aprender que passividade não pode ser sempre um fator positivo. Escolhi enfrentar minhas lutas usando o meu melhor como munição ao invés de continuar me escondendo para me manter viva. É importante compreender que não há vida sem um propósito, e não há propósito a ser conquistado sem que demos a cara a tapa algumas vezes.
 Me aceitar me deixou mais leve, me fez perceber que aquele peso sob meus ombros era o acúmulo de diferentes tipos de pessoas que não poderiam ser inseridas a mim, porque meu eu é perfeitamente adaptável àquilo que lhe é benéfico.
 Eu fui a festeira, a namoradeira, a barraqueira, a boazinha, a "aventureira", a mente aberta e a engolidora de sapos. Eu sorri por educação, fingi que estava tudo bem quando nada estava bem, aceitei pontos de vista sem nexo para evitar um conflito declarado e ri diante de palavras que me machucaram como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Eu fui forte quando tinha todo o direito de mostrar minhas feridas - só pra provar que eu não sou de ferro, eu também posso sangrar, caramba! - e usei o silêncio como resposta para todos que me fizeram interiorizar minhas tristezas sufocadas.
 Talvez isso soe como um ato de independência exagerado - dane-se - mas neste momento, me isento da responsabilidade de estar em constante acordo com as expectativas do mundo.
 Já me bastam as minhas.


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