quarta-feira, 22 de abril de 2015

Deixa ESSE passado entrar



Tinha um cara naquele filme bacana do Woody Allen com um papo de que pessoas nostálgicas têm tendência a negar a realidade. Um babaca, é claro. Acho que o personagem principal agiu da mesma maneira que eu provavelmente agiria - afinal, ele era o alvo da crítica. Um girar de olhos disfarçado e um sorriso de educação que escondia um singelo: "Por gentileza, cale a boca".
Admito que não sou a pessoa mais adequada para julgar esse tipo de constatação, afinal eu ainda me sinto hipnotizada por certos aspectos artísticos do passado cujo intuito eram justamente o de serem eternizados. Mas diga-se de passagem, o personagem do tal cara com a observação tendenciosa não passava de um pseudointelectual.
Acredito firmemente que a questão não gira em torno de estarmos ou não negando a realidade. Até porque isto é deveras inútil. Todos os dias somos obrigados a encará-la. Não me lembro de um dia sequer em que decidi fingir ser a rainha da Inglaterra só pra sair da rotina.
Isto é uma questão de prazer cultural.
Não há argumento que me convença de que estamos vivendo a melhor das eras no campo da música, da arte e da literatura. Na verdade, essa é a era do "nada se inventa, tudo se copia".
E de fato estamos até mesmo um pouco entediados com toda essa monotonia frenética do dia a dia das grandes metrópoles. São simplesmente os mesmos filmes com temas de super-heróis, as mesmas exposições com "artes" que até a minha sobrinha de 2 anos conseguiria fazer, bares descolados com muita gente... Muita gente a fim de conversar com mais gente, só que pelo Whatsapp.
Vez ou outra encontramos algo divertido, que tira risadas genuínas, tornam-se momentos memoráveis, despertam a nossa curiosidade e aguçam nosso desejo de buscar o que é novo.
Eu, particularmente, sempre acabo me vendo nesse tipo de ocasião quando estou de alguma forma ligada com algo do passado.
Claro que, no caso, deixo de lado as lembranças que envolvem ex-namorados - até porque a ideia aqui não é a de ficar na fossa.
Estou falando do genial Frank Sinatra, do talentoso Ray Charles e dos harmoniosos The Temptations. Falo de letras marcantes. Falo de Aretha Franklin encontrando seu grande amor em "Natural Woman" e de Billie Holiday comprometendo-se a amar em "Come Rain or Come Shine".
E como não sonhar em estar apaixonado se parecia simplesmente tão incrível naquelas canções dos Beatles?
E eu poderia ficar a noite inteira descrevendo as músicas, os filmes (só eu adoro aquele drama exagerado de "The Breakfast Club?", os livros (ainda devoro as palavras de Jane Austen sem me cansar) e ainda sim eles continuariam fazendo total sentido, mesmo sendo os responsáveis por esta minha eterna ilusão - ou esperança - de que sempre haverá algo além do superficial, que tem a capacidade de nos tocar, marcar nossas vidas e moldar nossos pensamentos.
 Acho que é por isso que gosto tanto do filme "Meia-noite em Paris": um cara vivendo seu sonho de viver todas as noites ao lado de seus escritores, músicos e artistas preferidos. Tendo a oportunidade de maravilhar-se num mundo que não deixa de encantá-lo.
 Quem não gostaria?

Nenhum comentário: