sexta-feira, 3 de abril de 2015

Em defesa dos introvertidos


Quando era adolescente, não achava essa coisa de ser tímido tão fascinante. Na verdade, nunca foi fascinante pra mim. A palavra "introvertido" sempre me remeteu à algo negativo. Pra mim era um grande mistério tentar entender qual era o real motivo de alguém achar nisso algo positivo. Com certeza foi um teste de paciência e, eu diria até de amabilidade, mas acho que isso é ir longe demais.
 De fato, meu problema com a timidez diminuiu com o passar do tempo, mas a tal da introversão continuou. E como poderia ir embora? Timidez é medo da rejeição, introversão é personalidade.
 Se soubesse disso naquela época, talvez entrasse em estado de desespero. E como não? Quando se tem 15 anos, ser extrovertido é a melhor coisa que pode acontecer. Ninguém fica achando que você tem "sérios problemas em se relacionar" ou fica sugerindo que você saia mais, namore mais e pare de ir à biblioteca quando o objetivo é cabular aula - uma estranha característica minha nos tempos de escola.
 Por outro lado, ser introvertido numa fase em que tudo o que você quer e sente que precisa fazer é se definir, bem, dificulta as coisas.
 Demorou um tempão pra que eu parasse de ficar "tentando me encontrar". A gente tem essa mania de tentar ser um pouco de tudo só pra se encaixar e acaba se frustrando quando percebe que nenhuma daquelas personalidades nos pertencem.
 Só que o tempo passa e hora ou outra a vida nos coloca na posição de se aceitar ou continuar inventando personalidades. Se chegar nessa fase, eu sugiro que seja você mesmo.
 Sei que a mensagem é deveras piegas, mas é bem realista. Viver de aparência é extremamente cansativo.
 Depois de um bom tempo partindo da premissa de que inventar personalidades era bem mais interessante, o cansaço das aparências finalmente me dominou e eu me vi numa crise de identidade - quem nunca?
 Fico feliz por Susan Cain ter escrito o sensacional "O poder dos quietos". Foi a primeira vez que me senti tão absolutamente sortuda por ser introvertida. Há algo de muito charmoso e interessante em estar desgarrada dessa ideia dominante de que ser extrovertido é o que há!
 Introvertidos são interessantes. Abominamos conversas fiadas, mas adoramos nos aprofundar nos mais variados assuntos. Podemos não ser os mais falantes em uma conversa, mas essa aptidão de ouvir mais nos ajuda a compreender o outro de maneira mais abrangente, solidária. Nos ensina a observar aspectos mais profundos do que é dito, como é dito e porque é dito.
 A ideia de que somos sozinhos e de que gostamos disso é totalmente distorcida e distante da realidade. Temos anseio em conhecer pessoas, mas buscamos relacionamentos mais profundos e resistentes. Não temos muita paciência para o que é superficial, por isso gostamos de mergulhar naquilo que é intelectualmente e emocionalmente relevante. Por isso é que conto os amigos verdadeiros nos dedos e ainda sim me sobra espaço.
 Quero deixar claro que não estou pregando contra os extrovertidos. Na verdade, eu adoro pessoas extrovertidas. Elas nos desafiam, nos intrigam, nos encantam, nos complementam. Alguns sortudos podem até ter o que a Susan chamou de "o melhor dos dois mundos" - algo entre o introvertido e o extrovertido.
 Só estou tentando fazer com que entendam que há mais na introversão do que se pode imaginar. Eu costumo sorrir feito boba quando percebo que estou começando a desvendar alguém, e com o passar do tempo vejo que ainda há muito a ser descoberto.
 Por isso, numa época em que o Facebook tem definido as pessoas, eu acredito que podemos e devemos ir além e ampliar o nosso olhar para aqueles que não conseguimos entender, mas que ainda têm a muito a nos mostrar.



Um comentário:

Gugu Keller disse...

O que mais precisamos dizer é em regra o que menos temos como.
GK