quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Construção de identidade


Veja bem, eu tenho lido bastante. Sobre pessoas, para ser mais específica. Tenho feito isso para tentar entender seus comportamentos e, no início, acreditava firmemente que o fazia para tentar me ajustar a eles. Eu dizia a mim mesma: Não é uma questão de insegurança, é adaptação.
Bobagem.
Mas devo dizer o que descobri: pessoas são realmente interessantes. Sabe, se parássemos de passar 95% do tempo pensando em nós mesmos, conseguiríamos perceber tudo o que pode haver de mais gentil, amoroso, perturbador ou curioso nos outros.
Então, cá estou para dizer o que descobri recentemente. Usarei minha própria história para relatar estas descobertas.
Para começar, devo dizer que quando criança e adolescente, eu gostava muito de teoria. Achava que era fascinante. Pensando bem, acredito agora que eu estava apenas convencida de que era uma maneira mais fácil de passar pela vida sem ter que ser afetada por todas as instabilidades que nos expõe.
Por isso eu nunca colocava nada do que aprendia em prática. Sabe, quando você cresce dentro de um sistema educacional que luta pra te convencer de que a escola está ali apenas para que você passe no vestibular e nada mais, tende-se a pensar justamente desta forma.
Mas eu cresci, me formei no ensino médio e logo entrei na faculdade.
Meus primeiros meses na faculdade foram de um fascínio impressionante. Lá estava eu tentando entender a razão - ou loucura - dos filósofos, e sendo bombardeada de descobertas sobre o comportamento humano e a forma como ele influenciava nas esferas política, religiosa, familiar, etc.
Apesar de tudo isso, eu não me sentia merecedora de estar ali. De fato, eu passei alguns meses pensando seriamente que deveria dar ouvidos aos meus medos e dar o fora o mais rápido possível. Fui totalmente convencida pelas minhas inseguranças de que não pertenceria àquele lugar nem em mil anos, e então desisti.
Isso aconteceu há uns 4 anos, mas na época, demorou apenas 6 meses para que eu percebesse que também não pertencia ao lugar de passividade em que me encontrava: deixando a vida me levar.
Entrei na faculdade de novo e me deixei ser conquistada pelo conhecimento que ela tinha a me oferecer, e não apenas porque eu queria um bom emprego, mas porque eu queria ir além e "curiar" tudo o que podia.
Minha área é a Comunicação, o que é bem irônico considerando que eu posso ser a pessoa mais calada do mundo quando largada num canto em qualquer lugar onde há pessoas demais. Por conta disso, minha sensação de pertencimento ainda continuava em baixa.
Mas diferente de minha primeira tentativa acadêmica, eu insisti e comecei a lutar contra os meus receios. Em algum momento, coloquei na minha cabeça que não faria nada menos do que o melhor - se não, eu preferia não fazer.
Então, assistindo a uma palestra de Amy Cuddy sobre linguagem corporal, comecei a observar meus hábitos. A maneira como nos portamos define quem nós somos, e a verdade é que se começamos a fingir que somos algo, podemos fazê-lo até realmente nos tornarmos isso.
A palavra "fingir" pode soar até forte e, em um primeiro momento, remeter a algo negativo e falso, mas vamos nos aprofundar mais nisso. Pensemos que, para que algo se torne um hábito, temos que fazê-lo todos os dias durante mais ou menos uns seis meses. E então, a coisa em si será tão natural que passará a fazer parte de sua personalidade.
Já ouvi diversas frases sobre coragem, mas a que mais me chamou a atenção por sua honestidade foi a de Franklin P. Jones. Ele disse: "Coragem é ser o único que sabe que você está com medo".
Sei que é uma forma de dizer que a coragem pode ser uma máscara, mas vamos admitir que é louvável e válido, considerando que ela é necessária para sobrevivência em qualquer tipo de sociedade.
Então, como um teste, comecei a fingir algumas emoções. E dentre elas, a mais válida foi a confiança que eu transparecia em mim mesma, da minha voz até minha expressão corporal. Cara, eu até cortei o cabelo! O fato de ficar sorrindo e tentando convencer a mim mesma de que eu sou boa em me comunicar talvez tenha sido a parte mais difícil. Mas funcionou.
Aqui estou eu, em um momento de minha vida em que me sinto plenamente confiante e menos insegura do que costumava ser. Parei de deixar que o medo roubasse a minha identidade, e comecei a colocar em prática as coisas que são relevantes para uma mudança de vida.
Descobri quem eu sou. E isso soa deveras piegas, eu sei. Mas é interessante o fato de que a cada dia descubro mais sobre minha personalidade, e ainda mais importante, sobre as pessoas ao meu redor.
Em outra palestra que assisti, desta vez sobre o poder da vulnerabilidade, a professora Brené Brown disse algo muito interessante sobre algumas das características das pessoas confiantes. Veja o que ela disse:

"(...) elas estavam dispostas a deixar de ser quem elas pensavam que deveriam ser a fim de ser quem elas eram".

Sabe, tem muito a ver com sairmos deste estado de passividade tão tentador que só tende a nos tornar deprimidos e inseguros. É sobre construirmos quem somos com base nas escolhas que fazemos.
Refletindo sobre minha própria história, eu tinha tudo para permanecer no estado em que me encontrava, acreditando que não merecia ser diferente, não merecia uma vida extraordinária e não merecia meus sonhos. Eu poderia continuar rendida ao meu honesto estado de depressão, insegurança e tristeza.
Mas o poder tem a ver com a nossa reação ao estresse. No final das contas, talvez não estivesse fingindo ao sorrir e acreditar que eu era boa em alguma coisa. Talvez estivesse apenas recuperando a confiança que havia sido tirada de mim durante tanto tempo.
Claro que ainda há coisas a serem trabalhadas em minha personalidade e na maneira como reajo às situações, mas fico feliz em saber que desta vez estou mais disposta do que nunca.
É preciso disposição para ter uma vida extraordinária. Mas a definição do que é extraordinário pra você fica a seu critério. Escolha com sabedoria.



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