segunda-feira, 16 de julho de 2012

Fechada pra balanço




“Eu não sei mais o que quero da vida”, pensou a garota logo que abriu os olhos naquela manhã chuvosa de segunda-feira.
 Ela estava assustada, mas imóvel. Flashes da noite passada rondavam sua cabeça. A música eletrônica havia tornado-se apenas barulho rápido demais, e o zunido em seu ouvido só a fazia desejar ainda mais uma boa dose de jazz, blue e rock. A cabeça doía, a garganta estava seca e os pés inchados, ah o maldito salto alto!
 O sentimento de realização de finalmente tornar-se desinibida foi momentâneo. Agora ela não se reconhecia. Sequer tinha certeza de que aquela ainda era ela. Talvez estivesse atingindo a puberdade social um pouco mais tarde. Compensar os quatro anos tortuosos da adolescência pareceu uma boa ideia semana passada, quando ansiava pelas saídas e pela sensação de alegria forjada causada pelo álcool. Gostava da atenção, gostava das conversas e gostava de se sentir divertida. Melhor ainda, gostava de ser desejada.
 Deveria ser o suficiente. Em seu subconsciente, ela era a pessoa que queria ser...Ou será que era quem os outros gostaria que ela fosse? Bem, não importava. Ela continuou deitada, procurando uma boa razão para se levantar e seguir em frente, afinal a vida é linda e cheia de flores, o céu é azul e as pessoas são legais. Pff, quem dera!
  Então viu-se questionando a profissão que escolhera, mesclou-a com a realidade e não pareceu tão genial quanto achava há algum tempo. Questionou tudo... O sentido do que era moralmente aceitável, como casar e ter filhos, e daquilo que era estranhamente sedutor, como viver sem regras, ser feliz com o básico. Mas o que diabos seria o básico? Já não estava alienada o bastante com as grandes ambições para retroceder ao básico?
 Percebeu que todo aquele controle que possuía sobre o futuro e sobre si mesma era ilusório. Ele nunca havia existido de fato, apenas a mantinha sã quando tudo que queria era sair correndo e privar-se de qualquer contato social que viesse a incomodá-la fosse com ofensas, fosse com palavras de consolo. Elas nunca consolavam realmente.
 E tudo acabou parecendo incerto novamente. “Tudo bem, essa é a hora em que eu piro”, pensou. Porém, simplesmente não conseguiu pirar, sequer levantou-se da cama convicta de enfrentar a nova realidade que suas recentes decisões haviam trazido-a. Ela preferiu permanecer ali, debaixo do cobertor, ouvindo o som da chuva, arrependendo-se de tudo e ao mesmo tempo de nada, morrendo de medo da incerteza do amanhã e desejando um propósito.
 Ela não ouviu discursos motivadores, não imaginou-se ao som de músicas animadas enquanto arrumava sua vida, não abriu a boca para se lamentar, não decidiu por ir em frente e também não optou por desistir. Mas fechou os olhos e trancou-se em sua mente, onde canções de John Mayer ecoavam e ideias fluíam como numa cachoeira.

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