domingo, 1 de setembro de 2013

Primeiros encontros


- Isso é legal. - Disse ela depois de observar a vista em volta do restaurante à beira-mar. As ondas estavam agitadas e a lua decidira aparecer assim, de última hora, limpando o céu e contrariando climatologistas que garantiam que seria uma noite de nuvens em San Francisco.
 O rapaz à sua frente era bonito. Seu sorriso com covinhas costumava atingir seus belos olhos azuis, que ás vezes pareciam acinzentados. Ele deu uma rápida olhada em volta para checar se o ambiente estava do jeito que ele havia imaginado e sorriu com satisfação ao notar que ela estava à vontade.
- Jantar, sabe? - Disse ela, que agora recebera um olhar um pouco confuso dele - Não é que eu seja fissurada em jantares. - Explicou-se rapidamente - Quis dizer que é um primeiro encontro diferente. Ninguém nunca havia me convidado pra jantar antes.
- Jura? E o que vocês fazem nos primeiros encontros no Brasil?
- A gente costuma ir ao bar, ao cinema, de vez em quando rola um McDonalds. - Ele riu - Não saí com caras muito criativos, ou românticos, nos últimos anos.
- E você é romântica? - Um sorriso astuto surgiu nos lábios dela. Era uma pergunta capciosa. De fato, já se perguntara aquilo várias vezes. Ser romântica envolvia uma série de questões que ela adorava ignorar - o fato de nunca lhe acontecer algo realmente digno de ser considerado como tal a deixara um pouco fria para certos tipos de delírios. É provável que o romantismo fosse um deles.
- Não sei dizer. Acho que o meu subconsciente espera romantismo, enquanto a superfície está sempre preparada para a boa e velha realidade.
- Cinema e McDonalds?
- Não se esqueça do bar.
- Claro, o bar!- Os dois riram.
- Eu sei... Também não entendo porque brasileiros são tão contrários à jantares nessas ocasiões. É uma tática infalível.
- Você acha?
- É claro. Quando vemos um galã como George Clooney fazendo isso, é óbvio que queremos nos sentir especiais como aquela mulher de sorte que conquistou seu coração. Em um jantar, ao menos temos a breve ilusão de que não estão apenas tentando nos embebedar. - Disse ela, logo depois tomando um gole de seu vinho - Há um simbolismo interessante por trás de jantares.
- Pensou em tudo isso quando te convidei? - Perguntou ele com um leve sorriso.
- Acho que eu estaria mentindo se dissesse que não. Até porquê esta já é minha segunda taça de vinho, e eu ainda nem comi a sobremesa.
- Já sei. Beber ativa seu botão da verdade?
- Um pouco pior do que isso. - Ela olhou para os lados, apoiou seus cotovelos na mesa e inclinou-se levemente em sua direção, sussurrando - Eu realmente me convenço de que sou uma filósofa. De repente é como se soltar minhas teorias fizessem as pessoas terem epifanias, eu sei lá. Parece até que é importante. Me sinto inteligente. - Ele sorriu. Estava se divertindo com aquela conversa.
- Eu não sei como, mas você consegue ser incrivelmente charmosa quando faz isso.
- Já disseram que sou uma chata "sabe-tudo", mas 'charmosa' é muito melhor.
- Acho que estavam tentando te ofender.
- Também acho. - Disse ela com uma expressão pensativa, logo depois dando risada.
- Será então que posso me considerar uma espécie de George Clooney? Quer dizer, tudo parece se encaixar perfeitamente. Vejamos, temos o jantar, que foi muito bom, admita.
- Sim, o filé estava ótimo.
- Também temos o mar, bem ali. - Disse apontando - A lua também decidiu me dar uma ajudinha.
- O vinho está ótimo.
- Safra 20 anos. Inacreditável. - Comentou ela.
- Eu nem estou calçando tênis, porque seria muito informal. - Ela o observou com cara de análise.
- Verdade. E este é um belo blazer. A propósito, adorei a camiseta do Nirvana. - Ele sorriu sem jeito.
- Certo... Um pouco informal. - Ela riu. - Você gostou, então está ótimo. E, vejamos... O que falta?
- Hum... Velas?
- Droga! Velas! Claro, como não pensei nisso? Acho que, talvez... - Dizia enquanto tirava algo do paletó - Isso sirva. O que acha? - Ele acendeu um belo isqueiro - Podemos ficar mexendo pra lá e pra cá, como nos shows da Amy Lee.
- Ou incendiar tudo. Acho que estamos bem sem o fogo. - Disse ela, entrando na brincadeira. Ele sorriu e guardou o isqueiro. - E o que falta?
- Não sei. O quê mais? - Foi a vez dele apoiar os cotovelos na mesa e inclinar-se para mais perto dela.
- Nada. A mulher que conquistou meu coração está na minha frente... E ela é incrivelmente linda e muito boa com as palavras. - Ela não conteve um leve sorriso. - Tenho tudo o que preciso bem aqui. - Seus lábios se tocaram num beijo leve, e logo depois seus olhares se cruzaram novamente.
- Que bom que não fomos ao McDonalds. - Disse ela, arrancando risadas do rapaz.

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