domingo, 12 de outubro de 2014

Amor de Tinder



Amor de Tinder não me cai bem. É algo frívolo. É um amor mais morno do que quente. Um buscar mais consequente. É ter promessa de perfeição e papo sem noção, conversa de elevador. É tipo amor delivery, com direito à promoção no domingo à noite: peça um e ganhe 2.
É cheio de carinha bom partido e vivido, viajado, aculturado, e todos os outros "ados". Pena que o auge da conversa é o "Tudo bom?". Dá vontade é de dizer: "Não! Não tá tudo bom! Eu esperava um poeta e me vem um clichêzão?!". Mas educadamente e seguido de uma carinha feliz a gente responde: "Tudo ótimo e vc?".
Amor de Tinder é uma extensão da realidade solitária que assola as pessoas. É abrir mão da primeira troca de olhares acidental, do meio sorriso sem jeito. É não ver a reação da outra pessoa ao falar contigo, as mãos suando, a fala trêmula, a risada nervosa, um olhar fugindo do outro e os pés... Ah, os pés, firmes no chão, sem sinal de fuga.
Amor de Tinder é prático. E vida prática pode ser boa em muitas áreas, mas não na sentimental.
Se é pra falar de amor, eu não quero amar "em praticidade". Quero amar devagar, beijar lentamente, sentir o tempo parar com o olhar preso em outro olhar. A praticidade eu deixo para os produtos da Polishop.
Amor de Tinder é vulgar, sem flerte romântico, sem elogio sincero, sem gostar simplesmente pelo gostar. É se atrair pelo o que não existe, inventar e moldar a perfeição.
É pedir pra ver foto de corpo inteiro, é cortar aquele assunto bacana sobre os Beatles no meio. É priorizar o cabelo bonito, o decote apertado, a barriga sarada e deixar pra depois aquela piada engraçada. Sim, porque piada boa é aquela que só os amigos entendem, ao te olhar com os olhos carregados de um misto de vergonha alheia e espanto por achar graça de algo que nem é tão engraçado.
Pra isso que serve a intimidade. Pra isso não tem aplicativo ou rede social que disponibilize tal dádiva de forma tão instantânea.
E de tudo isso, a única coisa que posso tirar do amor de Tinder é que ele pode ser tudo, menos amor de verdade.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Despertando o melhor



Sempre achei uma lindeza quando alguém dizia gostar de fulano porque ele o fazia ser melhor. Soa tão bonito para os ouvidos que dá até vontade de experimentar. Claro que, pra mim, esse tipo de coisa nunca aconteceu. As criaturas com as quais me relacionei eram, pelo menos as mais interessantes, do tipo mal caráter. E eu não era bem uma "vítima", era só uma garota buscando a forma mais branda de aventura e perigo.
Mas eles não despertavam o que havia de melhor em mim. É certo que na época nem eu sabia o que poderia causar em mim tamanho efeito, mas com certeza não era o bonitinho da academia.
Até então eu já sabia que relacionamentos amorosos sempre afetaram a minha vida de maneira não tão boa, e na maioria das vezes, quando pareciam caminhar para a seriedade, eram mais incômodos do que apaixonantes. E então eu fugia.
Eu não tinha me ligado no quanto isso impactou a minha vida. Quer dizer, eu sempre soube que em matéria de relacionamento amoroso minha nota nunca foi muito satisfatória. Mas me justificava saber como era estar tão apaixonada, nas raras vezes em que isso acontecia, e me entregar nesse tipo de paixão intensa e meio maluca.
Então, veja bem, eu sei o que é gostar muito de alguém e se imaginar tendo um futuro com essa pessoa. Assim como sei como é estar tão apaixonada e mergulhar de cabeça nisso mesmo ciente de que não há um futuro reservado.
Essa última citada foi a que realmente mexeu comigo. Sempre soube que era a adrenalina da queda que havia me atraído, mas não havia pensado direito em como seria quando estivesse tão próxima do chão.
Mesmo assim, o responsável por me influenciar de maneira tão inconsequente também não despertava o que havia de melhor em mim. Na verdade, passei tanto tempo acreditando que era bem provável que esse melhor talvez nem existisse aqui, que esqueci da teoria. Deixei para os filmes do Tom Hanks.
Agora as coisas estão diferentes. Eu mesmo nem me reconheço, o que é bom. Passei por uma transformação dolorosa, mas que no final valeu a pena. Ótimo! Porém, ainda me resta um pouquinho daquele medo de compromisso. A diferença é que agora eu entendo o que é realmente estar compromissado com alguém. É permitir que ela desperte o há de melhor em você.
Me peguei pensando que talvez eu nem queira esse melhor, que ele possa implicar em um tipo de perfeição que eu seria incapaz de manter, quem sabe até de alcançar. Que o melhor de mim pode nem me pertencer. Pode simplesmente ser uma pessoa diferente, criada por mim mesma para suprir a necessidade de ser feliz fazendo alguém feliz e, caramba! Que mega responsabilidade!
Só que depois de toda essa reflexão, parece muito mais aterrorizante não sentir esta forma tão nobre e genuína de amor e passar a vida entre um caso e outro, meio cheia, meio vazia.
Se eu adiar esse amor só mais um pouquinho, não é instinto de psicopatia, não. É só desejo reprimido. Mas desejo de descobrir as outras formas de amor primeiro... Na arte, na gastronomia, na profissão, nos lugares.
É medo de me prender e, consequentemente, me perder. Medo de perder a parte que me define.
Assim, só aceito entregar o meu melhor pra quem conseguir aceitar o meu pior. Perfeição, meu querido, não é a minha praia.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Pós-inverno


 Fiquei parada tempo demais observando a vida passar, sem trocar de canal e com os olhos vidrados, surpresa com tamanha rapidez. Lá se foram meses e sinto que pela primeira vez em muito tempo posso respirar de novo.
 A gente carrega tantos fardos que hora ou outra se acostuma. Pode doer a coluna, os ombros e o pescoço e o que fazemos é franzir o nariz, ignorar a dor e dizer: "Ah, é normal". Só que quando a dor é demais não é normal! Ignorei minha capacidade de adquirir forças por tanto tempo que também acabei ignorando que ela estava ali.
 Algumas coisas ficaram bem claras: eu não fingi. Sério, devem ter sido os meses mais sinceros da minha vida, porque se eu estava simplesmente cansada era isso que eu demonstrava. Se a alegria era plena, maravilha! Mas se o desânimo batia, era tão evidente que, lembrando disso, não consigo evitar de pensar no quão fraca eu estava.
 Eu havia me tornado transparente. Todas as minhas vulnerabilidades à mostra começaram a me definir e, honestamente, eu achei que seria mais difícil jogar a toalha e aceitar que eu havia mudado e que a mudança, apesar de não tão boa, era consequência e eu tinha de lidar com aquilo.
 Besteira!
 Não dá pra negar que muitas coisas vem pra te derrubar e, apesar de clichê, é fato que o importante é sempre arranjarmos forças pra levantar. Precisamos começar a entender que desistir não pode ser uma opção válida a todo momento. Apesar de também sermos suscetíveis ao fracasso, abraçá-lo como membro da família é autodestrutivo, é burrice e é mesquinho.
 Mesquinho, sim!
 Nosso papel de vítimas parece embaçar nossa visão e nos fazer ter crises de Alzheimer. Afinal, esquecemos que por menor que possa ser o número de pessoas que se importam, sempre há alguém fazendo isso por nós. A gente deixa de levar em conta o "Bom dia" acompanhado de um sorriso aconchegante, o elogio singelo que não carrega nenhum interesse sórdido, e até as tentativas de quem quer nos ver sorrindo - seja com uma piada ou um gesto.
 Acredito francamente que precisei de um tempo sozinha, organizando os pensamentos, limpando a bagunça, você sabe. Mas somente quando parei de me focar na minha solidão e passei a captar os verdadeiros sinais de que havia sim pessoas e coisas pela qual viver, é que uma genuína mudança passou a acontecer dentro de mim.
 Eu não sei como explicar com detalhes - acho que afinal ainda não sou uma escritora tão boa - mas acredito que tem sentimentos e situações que não precisam ser explicadas, e nós podemos simplesmente deixar os detalhes de lado e enfeitar um pouco pra ficar mais bonito.
 O inverno que depredou tanta coisa na minha vida deu espaço para uma primavera virtuosa. Aqui, do meu lugar ao sol, eu recebo de volta o calor que tanto me fez falta durante o frio da temporada passada.



terça-feira, 27 de maio de 2014

Um quarto de pensamentos


 Meu quadro de avisos é uma bagunça de post its coloridos sem nexo e poucas imagens que ilustram um passado interessante e uma apreciação por rabiscos e liberdade.
 De minha caixa de som só ressoam ritmos antigos, guitarras ferozes, vozes roucas e suaves, palavras doces, revolucionárias, amarguradas e esperançosas, mas nunca desprovidas de sentimento. Vestígios de curiosidades estão espalhados: livros em cima da escrivania, jogados na cama, amontoados na prateleira empoeirada e escondidos na bolsa largada num canto qualquer. Falam sobre tudo, analisam comportamentos, revelam segredos, intimidam, empolgam, criam expectativas e geram ilusões. Sinto-me mergulhar num abismo. A escuridão e a luz são relativas e mal lembro de minhas aflições tão banais e habituais. 
 Aqui, o que me amedronta mesmo é esta silenciosa solidão ante à falta de perspectiva. A solidão diante de um emaranhado de pessoas e vidas intangíveis, fingidas. Ser uma delas é inevitável - e um pesadelo. Talvez estando imersa nos pensamentos vorazes destes escritores da revolução, artistas brilhantes e inspiradores, meu coração cumule-se de essência e dê sentido à uma vida moldada de delírios.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Fuga


 Manhã de sábado e você levanta devagarzinho. Da minha cama, imagino suas escapadas em outros quartos, o recolher lento das roupas jogadas no chão. A sutileza ao girar a maçaneta da porta e a dancinha de comemoração ao chegar no lado de fora: livre novamente. Os corações partidos do outro lado estavam sempre adormecidos diante de sua partida e o despertar devia ser apenas um longo suspiro de decepção seguido de um aperto no travesseiro e pensamentos perturbadores, que logo seriam abafados pelo sono que voltava.
 Meu pensamento foi muito rápido e eu apenas torci para que, ao vê-lo partir, aquilo significasse que eu poderia detestá-lo em paz. Será que poderia ao menos me poupar de sua dancinha ridícula ao sair do quarto? Meu coração não estava dormente como o das outras.
 Então era isso: o produto final de um joguinho atraente. Você era o mauricinho descolado, preso em ternos de grife e sufocado por suas gravatas sofisticadas. Gel no cabelo, sorriso implacável - um belo sorriso - e simpatia para todos os gostos. Eu era a observadora refreando minha admiração e contendo minha paixão platônica.
 Podíamos ser o clichê de sempre, mas não fomos. De repente, caminhos se cruzam, sorrisos são trocados, conversas banais estimuladas. Seu charme é pretensioso, mas descubro um coração desafetado, carregado de carinho e paixão. Sua paixão me inspira, me faz querer ser melhor. Sua entrega é surpreendente, e receosa como sou, questionável.
 Aqui estou eu em posição de desconfiança mais uma vez. Você é o clássico "bom demais pra ser verdade" e o sonho acabou. 'Olá, realidade. Acho que senti sua falta' - penso de forma melindrosa.
 Só que você ousou chegar mais perto enquanto eu fingia dormir. Seu rosto aproximou-se de meu pescoço, pude sentir sua barba quase crescida e seu aroma da noite anterior. Inalou meu perfume e o toque de seus lábios acariciou meu rosto. Eu arrisquei abrir os olhos para fitá-lo pelo o que poderia ser a última vez, e me peguei presa em seu olhar penetrante.
 Subitamente, suas mãos me alcançam, seu toque me arrepia e seu sorriso atinge os olhos. É você me perguntando: "Posso ficar mais um pouco?". É quando eu percebo que a sua fuga... Sou eu.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Uma boa dose de mim, por favor.


Eu nunca fiz parte da "turma legal" de lugar nenhum. Nem da escola, da igreja, da faculdade ou do inglês. Eu sempre fui a coadjuvante dos cenários da minha vida. Estive nos cantos observando, calculando e pensando em tanta coisa que me tornei muito boa na arte de me desligar do mundo por alguns instantes. Infelizmente, não é o tipo de coisa que faz as pessoas suspirarem de orgulho. Ser meio solitária não é divertido como estar entre a galera das piadinhas e das conversas fiadas, mas é, de certa forma, edificante.
 Assim como ficamos à espera de alguém disposto a nos livrar de nossa solidão, nos ocupamos com tanta atividade mental que nos ligam à questões filosóficas e interiores, carregadas pela busca de sentido, que a ideia de abrir mão deste tipo de personalidade não só é questionável, como também quase impossível.
 Perdi as contas de quantas vezes me esforcei para sufocar quem sou, me escondendo sob uma máscara forçada de extroversão. É claro que detalhes de minha introversão sempre acabam escapando de um jeito ou de outro, e isso ficava nítido quando, diante de uma conversinha fiada sobre o tempo ou música eletrônica, tudo o que eu fazia era soltar um sorriso que não chegava a atingir os meus olhos.
 Meu "sorriso de educação" sempre foi um matador de climas. Era a prova de que o papo não fluiria, a cantada não daria certo ou que o ponto de vista de fulano era carente de argumentos plausíveis - ou era apenas estúpido mesmo.
 Não importa o quanto eu tentasse ser alguém que, de fato, não sou, eu nunca poderia fingir paixão por algo ou alguém. O brilho de fascinação em meus olhos é aquele tipo raro que aparece vez ou outra pra provar que ainda existem coisas capazes de surpreender em um mundo cujas relações tornaram-se tão previsíveis. Um bom filme, com enredo intrigante e um final de fazer os olhos lagrimejarem. Uma frase bem colocada, com um timing perfeito e o impacto necessário para atingir os limites da razão e alcançar o coração. A harmonia saindo do violão ou o frenesi que só o tocar dos corpos, junto com o olho no olho e a química certa entre duas pessoas podem causar. Sabe como é, eventos memoráveis e, ainda que simples, intensos.
 Depois de passar tanto tempo sacrificando minhas vontades numa tentativa falha de ser quem as pessoas esperavam que eu fosse - seja para estar dentro de um padrão aceito socialmente ou para aparentar ter características necessárias para estar em um grupo em particular - eu achei que não seria ruim dar uma chance de ser, pela primeira vez, eu mesma.
 Foram anos me descobrindo e, ao mesmo tempo, me escondendo. É estúpido se apegar à crença de que não gostarão de quem somos antes mesmo que possamos nos dar a oportunidade de nos mostrar. Quando se escolhe ser verdadeiro consigo e com os outros, o preço a ser pago pode ser bem alto, geralmente porque crescemos acreditando que devemos nos moldar a todo tipo de personalidade que nos é imposta.
 Mas essa autenticidade, mesmo sendo tantas vezes dolorosa, nos ajuda a manter quem é verdadeiro por perto. Eu, por exemplo, não sou nem de longe a pessoa mais popular nos grupos sociais em que estou inserida. Também não tento ser. Ao me manter verdadeira, me sinto confortável dentro de certos limites que eu impus a mim mesma, como o de não tentar chamar a atenção para compensar uma carência ou entrar em um confronto para poder sustentar esta mesma tentativa de ser o foco.
 É claro que consegui aprender que passividade não pode ser sempre um fator positivo. Escolhi enfrentar minhas lutas usando o meu melhor como munição ao invés de continuar me escondendo para me manter viva. É importante compreender que não há vida sem um propósito, e não há propósito a ser conquistado sem que demos a cara a tapa algumas vezes.
 Me aceitar me deixou mais leve, me fez perceber que aquele peso sob meus ombros era o acúmulo de diferentes tipos de pessoas que não poderiam ser inseridas a mim, porque meu eu é perfeitamente adaptável àquilo que lhe é benéfico.
 Eu fui a festeira, a namoradeira, a barraqueira, a boazinha, a "aventureira", a mente aberta e a engolidora de sapos. Eu sorri por educação, fingi que estava tudo bem quando nada estava bem, aceitei pontos de vista sem nexo para evitar um conflito declarado e ri diante de palavras que me machucaram como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Eu fui forte quando tinha todo o direito de mostrar minhas feridas - só pra provar que eu não sou de ferro, eu também posso sangrar, caramba! - e usei o silêncio como resposta para todos que me fizeram interiorizar minhas tristezas sufocadas.
 Talvez isso soe como um ato de independência exagerado - dane-se - mas neste momento, me isento da responsabilidade de estar em constante acordo com as expectativas do mundo.
 Já me bastam as minhas.


sábado, 5 de abril de 2014

Atrevimento


Eu entendi. Você me deseja. Na verdade, deseja o meu eu secreto. Aquele que eu tinha sufocado por medo de fracassar. O mesmo que me permiti abrir mão por me sentir no direito de passar meses sofrendo por algo que eu nem mesmo lembro mais o que era.
Você deseja a vitalidade e a paixão pela vida que eu havia deixado jogada às traças no porão enquanto me inundava no aparente doce charme da solidão.
Não me leve a mal. É que meus pensamentos eram apenas meus. Não ter que dividi-los foi diferente de não querer fazê-lo. Mas gente como eu escolhe de forma rigorosa quem vai ser digno de escutar tamanha confusão emocional. Minha confusão emocional.
Eu quis sim te poupar de minhas particularidades sombrias, meus medos discretos e minha coragem sufocada. Dividir minha loucura me pareceu o caminho para que pudesse descobrir minhas vulnerabilidades. E eu não queria isso.
Queria que pensasse em mim como uma "pessoa difícil", que não gosta de perder tempo jogando conversa fora. Seria muito mais fácil se me visse como a chata metida à intelectual, que ouve música antiga e lê livros de sociologia só pra se exibir.
Mas você viu minhas particularidades. Você achou bonito o que eu sempre achei ridículo em mim, compreendeu que meus estilos musicais não passavam do meio para que eu chegasse ao meu refúgio da realidade. E por compreender que estava muito difícil para mim sonhar com os pés no chão, conformando-me apenas em manter aqueles deliciosos paraísos em minha imaginação, se dispôs a me provar que viver os sonhos não era uma utopia. Que eu podia - e devia - transformá-los em objetivos.
 Acontece que eu passei a ousar de novo. Eu me atrevo a ser feliz porque você se atreveu a não desistir de mim.
 Sinceramente, obrigada.