sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sala de espera



Hoje eu me dei conta de uma coisa: eu estou numa grande sala de espera da vida. Parece até que eu acabei de chegar, mas na verdade eu já estou por aqui há um bom tempo.
E se você é um ser humano - e creio que seja - deve saber muito bem que esperar é o ó - uma velha expressão para lembrar dos bons tempos.
Se pudéssemos escolher algo prático para nossas vidas e essa fosse uma das opções, com certeza escolheríamos não esperar. A gente quer tudo pra agora, porque estamos em um momento da história em que não há tempo a perder. Tudo muda muito rápido e você não tem que querer se adaptar, mas você precisa fazer isso.
Eu trabalhava numa empresa da internet onde as mudanças eram tão constantes que, em uma das reuniões, foi dado um exemplo interessante sobre isso: “aqui é assim: o carro tá andando e a gente tá trocando os pneus com ele em movimento mesmo”.
Tenho uma notícia pra você: todo o resto também é assim. Por isso que às vezes temos a impressão de que estamos mais velhos do que realmente somos. É como se, ao passar o período de um ano, a sensação é de que foram dois anos! Não é uma loucura??
Quero deixar bem claro que não digo isso com admiração alguma. Se dependesse de mim, algumas coisas podiam ser mais lentas. Mas há uma ironia em que, mesmo vivendo nesta constante atmosfera de aceleração todos os dias, alguns de nós continuamos na sala de espera. E ainda que odiemos as vezes que as coisas sejam tão rápidas, odiamos mais ainda que, na sala de espera, a coisa seja devagar até demais.
Geralmente, quando estou na sala de espera de um lugar em que nunca estive antes, e não conheço bem os procedimentos, eu fico meio ansiosa e insegura. Meus pensamentos são sempre: Precisa pegar senha? É aqui mesmo? Mas vão chamar pela senha ou pelo nome?
Ou seja, eu tenho expectativas que tendem a pender tanto para o lado positivo, quanto para o negativo. Sabe, eu posso ficar horas ali e sequer ser chamada se não for a sala certa. Ou eu posso ser chamada e receber boas notícias ou um novo desafio. Vai saber.
E para não ajudar, salas de espera são muito silenciosas.
Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de bagunça e muito barulho. Mas pelo menos uma bagunça vez ou outra meio que mostra que tá todo mundo confuso mesmo, e estamos todos no mesmo barco.
No silêncio, você não sabe se o fulano que tá logo ali tá tão confuso quanto você ou se sabe muito bem o que tá fazendo. Se é que tem alguém na sala com você! Pode ser apenas você e o seu próprio silêncio - pior ainda.
O fato é que salas de espera geram uns sentimentos muito loucos na gente. Sendo assim, nada mais natural do que de vez em quando darmos uma enlouquecida básica pra tentar suprir tanta coisa que se passa na nossa cabeça.
Então, se você, assim como eu, está nessa grande sala de espera da vida, você vai ser chamado alguma hora. Não é que nós escolhemos estar aqui, mas por alguma razão nós precisamos disso.
E que escolha nós temos, não é? Ou acreditamos, ou seremos apenas idiotas sentados numa sala vazia - ou cheia, sei lá. Tire aí suas conclusões.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Quarta-feira


Eis uma história engraçada: eu não escrevo há algum tempo. Gostaria de dizer que não escrevo há anos para dar um efeito mais impactante no texto, mas daí eu estaria mentindo.
Bom, tudo bem. Não é bem uma história engraçada. É meio deprimente, na verdade. Mas isso pode ser relativo. Quer dizer, vejo meus textos antigos e em alguns deles eu vejo uma garota deprimida e insegura. E então eu leio mais adiante e vejo a mesma garota sonhando, e logo depois sendo cínica, e depois sendo cética.
Sabe como é, fases.
Hoje essa garota – que por um acaso ainda sou eu – não sabe bem como se definir, mas ela gosta de ser vista como uma jovem adulta, uma mulher.
Ta legal, vou parar de falar em terceira pessoa.
Estou aqui para dizer que eu cresci um pouco, e fiquei meio confusa, e larguei a escrita, e então me arrependi e estou com saudades. Uma saudade imensa do som das teclas do meu velho notebook sendo apertadas de forma frenética e empolgada porque há um amontoado de palavras vindas sabe-se lá de onde, loucas para serem escritas.
Elas podem nem fazer muito sentido agora, mas não ligo. Digo isso porque ao abrir a página do Word, minha intenção era escrever uma resenha sobre o filme “Ligados pelo amor” – que eu achei simplesmente lindo. Eu iria falar algo a respeito de perdão, família e provavelmente também usaria a palavra “reconciliação” – porque eu gosto dessa palavra. Mas agora eu não quero falar disso. Não estou me sentindo sentimental o bastante.
Na verdade, estou voltando a alguns antigos hábitos, como ler Douglas Adams – tem sido uma terapia. E é difícil não me sentir preenchida quando eu vejo todas estas linhas escritas e percebo que ainda há algo a ser dito. Caramba, há muita coisa a ser dita!
E eu poderia tentar contar toda a minha trajetória desde o último post, mas isso daria muito trabalho e você provavelmente ficaria entediado. Talvez eu conte uma ou outra coisa no futuro, ou escreva contos sobre isso. Mas por agora, eu quero apenas esbanjar esta plena satisfação de saber que aqui dentro ainda paira a alma de uma escritora.
Uma escritora que nunca conseguiu de fato terminar de escrever um livro e que detesta a ideia de ler o mesmo romance porque parece uma perda de tempo com tantos outros esperando para serem lidos. Não é muito admirável, eu sei. Digo isso porque acho incrível essas pessoas que conseguem ler o mesmo livro várias vezes e decoram suas frases preferidas.
            Eu queria conseguir citar as frases dos meus autores favoritos durante uma conversa, ou sair por aí dizendo que amo Hemingway só pra parecer mais intelectual. Só que eu nunca li um romance de Hemingway – e lamento mesmo por isso – além de não conseguir decorar uma frase sequer dos livros que já li.
Na verdade, o primeiro livro que lembro de ter amado foi “A garota americana” de Meg Cabot. E apesar de não me orgulhar disso, eu era uma leitora voraz da série “Crepúsculo”. E entrando na onda da moda dos vampiros, não deu pra evitar ler “Os diários do vampiro” – e sim, eu me sentia o máximo por isso.
O fato é que todos esses universos criados por autores célebres - e autores meia boca - me trouxeram até este momento: As onze e meia de uma quarta-feira turbulenta e meio estressante, em frente ao meu computador, num raro silêncio que invade a minha casa e aquieta meus anseios.
O que posso dizer? É bom estar de volta.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sobre deixar de ser a regra


 Não sei muito de relacionamentos longos, admito. Por isso mesmo sempre fico meio sem jeito quando estou numa roda em que a conversa predominante tem a ver com a rotina de um casal ou seus planos para o futuro - especialmente quando eu sou a única solteira na roda.
 Mas o que me falta de experiências me sobra de imaginação. Pois bem, ficamos aí sendo julgados por idealizarmos o tipo de relacionamento que gostaríamos de ter. Mas se não vamos fazer isso, quem fará por nós?
 Antigamente, minha visão sobre isso envolvia a minha total independência em um relacionamento aberto. Me sentia descolada, mas estava apenas optando pelo caminho mais fácil, onde você não precisa se comprometer com o cara, nem com os amigos do cara e menos ainda com a família do cara.
 Se acabar, ufa. Um alívio! Bola pra frente porque, mais uma vez, cá estamos nós sendo a regra ao invés da exceção.
 Só que isso dói, cara.
 Mas deixemos as dores pra lá.
 Fato é que há tipos de casal - e apesar de não estar apta por experiência a analisar um desses tipos, arrisco-me mesmo assim. Resumidamente, posso separá-los em dois grupos: os que tem planos e os que não tem.
 Casais que não tem planos deixam a vida levá-los. Vivem de acordo com o nível de suas paixões e são movidos repetidamente por essas emoções tão volúveis que as pessoas tem.
 Legal. Parece emocionante essa vida sem regras, livre de amarras e satisfações. Será?
 Não aparenta ser muito fácil.
 Já parou pra pensar no que é a vida sem propósitos? Ela é vazia, basicamente.
 Estar em um relacionamento sem propósitos é desgastante emocionalmente. Sabe, quando as pessoas passam em sua vida, elas tendem a deixar marcas. Só que chega uma hora em que nos cansamos de ficar colecionando cicatrizes. Dá vontade de ser marcado por algo bom, pra variar.
 Acredito que, mais do que o contato físico e emocional, estar com alguém envolve ter e depositar esperança no futuro.
 Me chame de sonhadora, mas tenho tido esperança.
 E uma das coisas boas disso é que você para de ficar aceitando as migalhas dos outros e passa a se sentir merecedor de um futuro que tem tudo para ser incrível.
 Você finalmente para de acreditar que será sempre a regra, a outra, a segunda opção - ou a quinta, sei lá.
 Por isso, você pode até me chamar de iludida ou pensar que eu estou vivendo no " Fantástico mundo de Bob", mas não posso me permitir NÃO idealizar, sabe?
 Vou acreditar que um dia poderei admirar o caráter de alguém que se sente a vontade sendo ele mesmo. Alguém com bons princípios, firmados e fortalecidos, um coração de ouro e, se possível, bom humor pra levar o dia a dia e seriedade pra lidar com o que for necessário. E tudo isso sem desconfiar de que aquilo é tudo fingimento.
 Sabe o outro tipo de casal que eu estava pra mencionar? Bom, eles têm planos. E pra ser bem honesta, eu sempre achei isso muito admirável.
 A gente só faz planos realmente significativos com quem pretendemos compartilhar nossas vidas. E pra compartilhar, temos que entrar em um processo de aprendizagem que também envolve abrir mão de muita coisa em prol da boa convivência. Complemente isso com amor e você me verá repetir: Isso é admirável pra caramba!
 Vejo agora como uma mentira essa admiração que muita gente tem por pessoas que tem "coragem" de se entregar a algo que está fadado ao fracasso. Fácil se entregar sem calcular os riscos.
  Difícil mesmo é, depois de tanto cálculo, a gente acabar percebendo que por amor vale a pena abrir mão de tanta promessa vazia de felicidade e prazer pra viver algo muito mais profundo.




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Histórias de paixão


Gostaria de lhe contar sobre o que é estar apaixonada, mas não tenho boas histórias de amor. Tenho histórias de riscos que foram corridos, mas em prol do amor? Não sei, não.
Isso que gostamos de chamar de amor e que nos faz sentir uma palpitação fora do normal dentro do peito não é amor, é paixão. Com o tempo, isso pode vir a ser amor, mas até que esteja plenamente edificado, nossos corações, quando apenas dominados pelo fogo da paixão, tendem a ser frágeis e vulneráveis.
Como eu dizia, não tenho boas histórias de amor. Mas tenho um montão de palavras que foram ditas e logo perdidas em um passado nebuloso. Ah, eu tenho palavras lindas, ditas de "todo coração". Tenho canções cantadas ao pé do ouvido, letras enviadas por mensagem e melodias carregadas de emoção.
O que eu tenho são momentos.
A grande canalhice dos momentos é que eles são efêmeros. Uma vez me disseram que eu devia aproveitá-los mais, esquecer do passado e do futuro. O presente estava bem ali na minha frente esperando ser vivido. Daí completaram, disseram que isso poderia até virar amor.
Mas vou te dizer uma coisa, não se conhece de verdade uma pessoa quando estamos no calor da paixão. O que a gente conhece é uma imagem construída em nossa mente para sustentar nossas fantasias românticas de juventude.
Porém, não vou pregar que a paixão é uma cilada. Na verdade, é bem interessante. Acredito que sentimos quando algo vale a pena ser vivido, pois aí nem sequer deixamos que as dúvidas tomem conta de nossos pensamentos.
Outras vezes, sentimos aquele desconforto dentro de nós, como se algo estivesse a nos alertar que estamos prestes a cair numa armadilha. Gostaria de dizer que em todas as vezes que senti isso eu segui minha intuição à risca, mas isso seria uma mentira.
Por outro lado, nunca consegui me enganar por tanto tempo. Quando você fala muito consigo mesma, tende a ouvir um montão de sermões também, e todos eles vindos das análises minuciosas feitas por sua mente a cada momento em que as peças de um grande e bagunçado quebra-cabeças são encaixadas.
No final, restam algumas verdades. Elas podem facilmente causar tristeza, raiva, indignação, alívio ou alegria - não necessariamente nesta ordem.
Mas tudo bem. Faz parte da construção da tão almejada inteligência emocional. Ao menos sobram experiências para ótimas histórias. Histórias de paixão nunca saem de moda, mesmo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Construção de identidade


Veja bem, eu tenho lido bastante. Sobre pessoas, para ser mais específica. Tenho feito isso para tentar entender seus comportamentos e, no início, acreditava firmemente que o fazia para tentar me ajustar a eles. Eu dizia a mim mesma: Não é uma questão de insegurança, é adaptação.
Bobagem.
Mas devo dizer o que descobri: pessoas são realmente interessantes. Sabe, se parássemos de passar 95% do tempo pensando em nós mesmos, conseguiríamos perceber tudo o que pode haver de mais gentil, amoroso, perturbador ou curioso nos outros.
Então, cá estou para dizer o que descobri recentemente. Usarei minha própria história para relatar estas descobertas.
Para começar, devo dizer que quando criança e adolescente, eu gostava muito de teoria. Achava que era fascinante. Pensando bem, acredito agora que eu estava apenas convencida de que era uma maneira mais fácil de passar pela vida sem ter que ser afetada por todas as instabilidades que nos expõe.
Por isso eu nunca colocava nada do que aprendia em prática. Sabe, quando você cresce dentro de um sistema educacional que luta pra te convencer de que a escola está ali apenas para que você passe no vestibular e nada mais, tende-se a pensar justamente desta forma.
Mas eu cresci, me formei no ensino médio e logo entrei na faculdade.
Meus primeiros meses na faculdade foram de um fascínio impressionante. Lá estava eu tentando entender a razão - ou loucura - dos filósofos, e sendo bombardeada de descobertas sobre o comportamento humano e a forma como ele influenciava nas esferas política, religiosa, familiar, etc.
Apesar de tudo isso, eu não me sentia merecedora de estar ali. De fato, eu passei alguns meses pensando seriamente que deveria dar ouvidos aos meus medos e dar o fora o mais rápido possível. Fui totalmente convencida pelas minhas inseguranças de que não pertenceria àquele lugar nem em mil anos, e então desisti.
Isso aconteceu há uns 4 anos, mas na época, demorou apenas 6 meses para que eu percebesse que também não pertencia ao lugar de passividade em que me encontrava: deixando a vida me levar.
Entrei na faculdade de novo e me deixei ser conquistada pelo conhecimento que ela tinha a me oferecer, e não apenas porque eu queria um bom emprego, mas porque eu queria ir além e "curiar" tudo o que podia.
Minha área é a Comunicação, o que é bem irônico considerando que eu posso ser a pessoa mais calada do mundo quando largada num canto em qualquer lugar onde há pessoas demais. Por conta disso, minha sensação de pertencimento ainda continuava em baixa.
Mas diferente de minha primeira tentativa acadêmica, eu insisti e comecei a lutar contra os meus receios. Em algum momento, coloquei na minha cabeça que não faria nada menos do que o melhor - se não, eu preferia não fazer.
Então, assistindo a uma palestra de Amy Cuddy sobre linguagem corporal, comecei a observar meus hábitos. A maneira como nos portamos define quem nós somos, e a verdade é que se começamos a fingir que somos algo, podemos fazê-lo até realmente nos tornarmos isso.
A palavra "fingir" pode soar até forte e, em um primeiro momento, remeter a algo negativo e falso, mas vamos nos aprofundar mais nisso. Pensemos que, para que algo se torne um hábito, temos que fazê-lo todos os dias durante mais ou menos uns seis meses. E então, a coisa em si será tão natural que passará a fazer parte de sua personalidade.
Já ouvi diversas frases sobre coragem, mas a que mais me chamou a atenção por sua honestidade foi a de Franklin P. Jones. Ele disse: "Coragem é ser o único que sabe que você está com medo".
Sei que é uma forma de dizer que a coragem pode ser uma máscara, mas vamos admitir que é louvável e válido, considerando que ela é necessária para sobrevivência em qualquer tipo de sociedade.
Então, como um teste, comecei a fingir algumas emoções. E dentre elas, a mais válida foi a confiança que eu transparecia em mim mesma, da minha voz até minha expressão corporal. Cara, eu até cortei o cabelo! O fato de ficar sorrindo e tentando convencer a mim mesma de que eu sou boa em me comunicar talvez tenha sido a parte mais difícil. Mas funcionou.
Aqui estou eu, em um momento de minha vida em que me sinto plenamente confiante e menos insegura do que costumava ser. Parei de deixar que o medo roubasse a minha identidade, e comecei a colocar em prática as coisas que são relevantes para uma mudança de vida.
Descobri quem eu sou. E isso soa deveras piegas, eu sei. Mas é interessante o fato de que a cada dia descubro mais sobre minha personalidade, e ainda mais importante, sobre as pessoas ao meu redor.
Em outra palestra que assisti, desta vez sobre o poder da vulnerabilidade, a professora Brené Brown disse algo muito interessante sobre algumas das características das pessoas confiantes. Veja o que ela disse:

"(...) elas estavam dispostas a deixar de ser quem elas pensavam que deveriam ser a fim de ser quem elas eram".

Sabe, tem muito a ver com sairmos deste estado de passividade tão tentador que só tende a nos tornar deprimidos e inseguros. É sobre construirmos quem somos com base nas escolhas que fazemos.
Refletindo sobre minha própria história, eu tinha tudo para permanecer no estado em que me encontrava, acreditando que não merecia ser diferente, não merecia uma vida extraordinária e não merecia meus sonhos. Eu poderia continuar rendida ao meu honesto estado de depressão, insegurança e tristeza.
Mas o poder tem a ver com a nossa reação ao estresse. No final das contas, talvez não estivesse fingindo ao sorrir e acreditar que eu era boa em alguma coisa. Talvez estivesse apenas recuperando a confiança que havia sido tirada de mim durante tanto tempo.
Claro que ainda há coisas a serem trabalhadas em minha personalidade e na maneira como reajo às situações, mas fico feliz em saber que desta vez estou mais disposta do que nunca.
É preciso disposição para ter uma vida extraordinária. Mas a definição do que é extraordinário pra você fica a seu critério. Escolha com sabedoria.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Like a fool



Sabe, não importa quantas experiências eu tenha com relacionamentos, eu continuo como uma principiante. Minha consciência me diz que tenho medo de me entregar e que fico inventando motivos para fugir do imaginário romântico que é estar com alguém.
Quero sempre convencer a mim mesma de que há coisas mais importantes a se fazer. Há pessoas pra conhecer, coisas a estudar e lugares para descobrir.
As paixonites tendem a me limitar.
Imagino que seria muito mais fácil ser como os outros, que criam uma vida baseada no sentir. Já diziam por aí que a ignorância pode ser uma benção.
Mas cá estou eu, na frente desta tela iluminada, no meio de meu quarto escurecido, ansiando para que as palavras saiam da forma mais natural e honesta possível. Este som das teclas é como música para os meus ouvidos... É como ouvir Frank Sinatra em um dia de chuva.
E mesmo assim o coração aperta. Quer trabalhar sozinho, pedir as contas. Diz que cansou de trabalhar com minha razão... Diz que ela me põe amarras, que eu não sei o que é aproveitar a vida. Meu coração poderia me ensinar, poderia cuidar de tudo. Ele me mostraria este mundo cheio de coisas tentadoras e emocionantes. Cheio de momentos.
Viva o momento! Sinta o momento! - ele diria.
"Seja escrava dos momentos" - eu ouviria - "Não construa nada pra si, algum dia tudo acabará".
Honestamente, eu não acredito nesses discursos em que o coração deve mandar. O coração pode ser mimado e desenfreado em sua incessante busca pela parte que lhe falta.
Mas eis uma verdade: eu sei o que me faltava, e esta parte aqui dentro está perfeitamente preenchida, obrigada.
O aperto que sinto agora é incômodo, admito, porém passageiro. Em algum momento eu acordarei e me sentirei livre das lembranças e do passado. E por aquilo que eu só posso encarar como um milagre, a esperança que tenho é muito maior do que as memórias de um romance que não passava de um turbilhão de palavras bonitas e mascaradas.
Ninguém estava fingindo, eu sei. Mas vamos admitir, somos muito bons em nos enganar.


domingo, 23 de agosto de 2015

Padrões



 Estou já há alguns meses sem ter um encontro. Ou melhor dizendo, um bom encontro.
 Eu, particularmente, detesto sair com pessoas totalmente diferentes de mim. Não porque eu me acho superior, mas simplesmente porque neste tipo de situação, eu sempre acabo tentando me enquadrar um pouco na personalidade do cara. É como se eu ficasse buscando uma brecha pra convencer que temos sim algo em comum - algo além do mesmo amigo.
 Nunca dá certo.
 Dependendo da minha força de vontade, o tiro sempre acaba saindo pela culatra, mais cedo ou mais tarde. É quando eu já nem tento mais e fico tomando goles da minha bebida e olhando para a tv fingindo estar prestando atenção no noticiário pra tentar ignorar que aquilo está péssimo.
 Daí fiquei me perguntando porque é que nós, mulheres, estamos sempre tentando ser a mulher perfeita pro tal cara que vai mudar em prol de nossa vã perfeição?
 Lá nos anos 60, a emblemática mulher perfeita era a dona de casa requintada, bem arrumada e conformada. Quando navego em alguns posts do Facebook, o que mais vejo são novos padrões. Sempre encontro um ou outro texto pseudointelectual que afirma ser o manual para relacionamentos. Em um deles, havia uma lista das qualidades que toda mulher do século 21 devia ter pra conseguir um cara legal.
 E lá estava eu lendo que a mulher tinha que falar de futebol e gostar de UFC. Se eu fosse levar a sério aquele ridículo texto, eu estaria totalmente convencida de que estava ferrada. Primeiro porque, por mais que eu tente, não consigo entender lhufas de futebol, e nem tenho paciência pra ouvir a explicação sobre o porque alguns gols são impedidos.
 Além do mais, UFC pra mim é moda. E não, não dá pra entender porque é que tanta gente gosta de ver o povo levar porrada de graça. São assuntos totalmente fora de pauta pra mim.
 E não é que eu condene todos que gostam de UFC ou futebol. Simplesmente são coisas que não se encaixam em meus gostos pessoais e, honestamente, não estou disposta a fazer nenhum esforço para gostar.
 Mas o tempo todo eu vejo garotas falando com total empolgação dos tais assuntos quando estão numa roda de amigos. Elas carregam cervejas em long neck, vestem uma roupa apertada, enchem a cara de reboco e saem por aí fingindo ser a garota descolada que também curte coisas de homem.
 Existem sim mulheres que gostam mesmo destas coisas, mas não é delas que estou falando. Você, caro leitor, sabe bem a quem me refiro.
 O que vejo são novos padrões engolindo antigos padrões, mas que no fundo, remetem à mesma ladainha de sempre: a mulher tem que ser "a" mulher.
 Todo esse papo de mulheres que tentam ser o ideal dos homens me fez lembrar do livro "Gone girl" - vulgo "Garota Exemplar", de Gillian Flynn. O que vemos é uma mulher que desde o início mostrou-se totalmente perfeita ao cara pelo qual se apaixonou, e logo depois que mostrou quem era, seu casamento entrou em crise.
 Não que o extremo de personalidade que o livro propõe seja a realidade de todas as mulheres, mas faz todo sentido.
 A verdade é que, no fundo, todas nós gostamos da ideia de estar solteira por um tempo. O problema é que, por todos os lados, estamos sendo pressionadas a termos um relacionamento estável. E a pior parte é que, quando todos os nossos amigos já estão em um, sempre tem alguém tentando nos ensinar como é que a coisa toda funciona.
 Será possível que eu, em meu livre-arbítrio não poderia simplesmente viver a vida da maneira que eu quiser? Há uma real possibilidade de eu lembrar como é bom estar, de fato, solteira, ou preciso mesmo de mais um relacionamento ruim pra lembrar disso?
 A ideia de viver sozinha o resto da minha vida não me atrai de maneira nenhuma. Solidão é um porre. Mas há outras ideias além de estar em um relacionamento, certo? Posso eu sonhar em ser bem sucedida sem ter que traçar planos para casar daqui há 5 anos?
 Claro que sim!
 Encontrar a pessoa certa leva tempo. E depois de um tempo passando por tanto relacionamento errado, concluí que toda essa tal "experiência" não vale de nada. Quando se trata de pessoas, quantidade não é tão importante quanto qualidade. É importante perguntar a si mesmo o quanto você amadureceu ou emburreceu naquele último relacionamento. Se acrescentou, bem, se não, de que adianta continuar tentando os mesmos métodos com os próximos?
 Vou te dizer o lado bom de não ficar fingindo ser outra pessoa para impressionar outras: você é único! Pode ser que hajam pessoas parecidas com você, mas só você é você. Então pra quê ficar perdendo tempo construindo uma nova personalidade, se no final das contas a sua máscara vai cair e você vai sentir falta de ser você mesmo?