- Eu detesto os homens! Malditos manipuladores! - Declarei, revoltada, em uma conversa com uma amiga. - Eu deveria ser lésbica. Aliás, eu gostaria muito de ser lésbica. Seria tudo mais simples.
- Mas não é você que vive dizendo que mulher é um bicho ruim e que é por isso que prefere ter amigos homens? - Perguntou ela com um olhar de sabidona.
- É, mas nesse caso é diferente.
- Diferente como?
- Estamos falando de relacionamentos entre mulher com mulher. Por mais que no fundo nós nos odiemos, também nos conhecemos muito bem. E uma coisa é certa: quando odiamos, odiamos pra caramba. Mas quando gostamos, somos totalmente fiéis e éticas umas com as outras.
- E isso te faz querer ser lésbica?
- Não, os homens me fazem querer ser lésbica. Pra eles o único acordo de boa conduta que fazem é com a marca da cerveja.
- Ah, e não esqueça do futebol com os amigos! - Recordou-me, parecendo entrar no clima de minha revolta.
- Isso! O maldito futebol! - Tomamos um gole de nossa cerveja enquanto refletíamos sobre o assunto. - Se bem que nós também somos meio manipuladoras. - Admiti.
- Meio? Somos mestres nisso.
- Bem, é uma questão de sobrevivência. Além do mais, todo mundo sabe que as mulheres são infinitamente mais inteligentes que os homens, por isso mesmo deixamos eles acreditarem que isso não é verdade.
- Como assim?
- Ai, bobinha. Se tirássemos a razão deles o tempo todo eles ficariam putos o tempo todo. E fala sério, ninguém merece homem de tpm. No mínimo ele vai procurar outra pra dar razão às escrotices dele. Mas nós, espertas e evoluídas como somos, de vez em quando fingimos que eles estão certos, só pra não quebrar o equilíbrio.
- Equilíbrio, Dani?! Que história é essa agora? - Perguntou ela, agora parecendo bem confusa. Coitadinha.
- Como "que história é essa?!". O equilíbrio de poder, minha filha! Damos um gostinho de poder à eles para, quando nos for conveniente, mostrarmos quem é que manda de verdade. Nós, entendeu?
- Ah, entendi. Vendo por esse ponto de vista, eu acho que não iria querer ser lésbica. Você não sentiria falta desse joguinho?
- Ô. E como! O problema é que não funciona o tempo todo. Pelo menos não com o mesmo cara. Chega uma fase do jogo em que nós mesmas estragamos tudo.
- Do que está falando?
- Ué, não é óbvio? Dos nossos sentimentos! Os homens são uma máquina movida a sexo, cerveja e futebol. Eles não têm tempo pra pensar nas estratégias do jogo, contanto que isso os leve até o objetivo final: transar. Nós, por outro lado, somos super espertinhas enquanto brincamos com eles, esperando receber elogios, saídas divertidas e romantismo em troca de ter um desses pagando de namoradinho. E depois que conseguimos tudo isso e damos a eles a recompensa, já era! E pra terminar de foder ainda mais ficamos apaixonadinhas. E então quando realmente queremos elogios, romantismo e todas essas babaquices, eles só querem saber de transar. E o pior de tudo: nós damos isso a eles! E de graça!
- Isso até eles enjoarem e procurarem outras.
- Exatamente. Você tá começando a entender meu raciocínio.
- É, mas sei lá. Não estamos generalizando demais? A probabilidade de existirem homens que são diferentes pode ser baixa, mas não é uma coisa impossível.
- Pois é. É por isso que deposito minha esperança nos europeus e americanos. Vai que isso é mal de pátria, né?
- Tudo bem, então, nestes tempos difíceis, você realmente toparia ser lésbica? - Fiz cara de pensativa.
- Ah, não, obrigada. Se o amor é um campo de batalha, já pensou que merda ter um inimigo que sabe exatamente quais são suas estratégias?
Naquele noite bebemos e conhecemos uns gatinhos. Infelizmente eles não eram europeus e nem americanos. Tive que deixar o sonho pra uma próxima oportunidade.

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