terça-feira, 27 de maio de 2014

Um quarto de pensamentos


 Meu quadro de avisos é uma bagunça de post its coloridos sem nexo e poucas imagens que ilustram um passado interessante e uma apreciação por rabiscos e liberdade.
 De minha caixa de som só ressoam ritmos antigos, guitarras ferozes, vozes roucas e suaves, palavras doces, revolucionárias, amarguradas e esperançosas, mas nunca desprovidas de sentimento. Vestígios de curiosidades estão espalhados: livros em cima da escrivania, jogados na cama, amontoados na prateleira empoeirada e escondidos na bolsa largada num canto qualquer. Falam sobre tudo, analisam comportamentos, revelam segredos, intimidam, empolgam, criam expectativas e geram ilusões. Sinto-me mergulhar num abismo. A escuridão e a luz são relativas e mal lembro de minhas aflições tão banais e habituais. 
 Aqui, o que me amedronta mesmo é esta silenciosa solidão ante à falta de perspectiva. A solidão diante de um emaranhado de pessoas e vidas intangíveis, fingidas. Ser uma delas é inevitável - e um pesadelo. Talvez estando imersa nos pensamentos vorazes destes escritores da revolução, artistas brilhantes e inspiradores, meu coração cumule-se de essência e dê sentido à uma vida moldada de delírios.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Fuga


 Manhã de sábado e você levanta devagarzinho. Da minha cama, imagino suas escapadas em outros quartos, o recolher lento das roupas jogadas no chão. A sutileza ao girar a maçaneta da porta e a dancinha de comemoração ao chegar no lado de fora: livre novamente. Os corações partidos do outro lado estavam sempre adormecidos diante de sua partida e o despertar devia ser apenas um longo suspiro de decepção seguido de um aperto no travesseiro e pensamentos perturbadores, que logo seriam abafados pelo sono que voltava.
 Meu pensamento foi muito rápido e eu apenas torci para que, ao vê-lo partir, aquilo significasse que eu poderia detestá-lo em paz. Será que poderia ao menos me poupar de sua dancinha ridícula ao sair do quarto? Meu coração não estava dormente como o das outras.
 Então era isso: o produto final de um joguinho atraente. Você era o mauricinho descolado, preso em ternos de grife e sufocado por suas gravatas sofisticadas. Gel no cabelo, sorriso implacável - um belo sorriso - e simpatia para todos os gostos. Eu era a observadora refreando minha admiração e contendo minha paixão platônica.
 Podíamos ser o clichê de sempre, mas não fomos. De repente, caminhos se cruzam, sorrisos são trocados, conversas banais estimuladas. Seu charme é pretensioso, mas descubro um coração desafetado, carregado de carinho e paixão. Sua paixão me inspira, me faz querer ser melhor. Sua entrega é surpreendente, e receosa como sou, questionável.
 Aqui estou eu em posição de desconfiança mais uma vez. Você é o clássico "bom demais pra ser verdade" e o sonho acabou. 'Olá, realidade. Acho que senti sua falta' - penso de forma melindrosa.
 Só que você ousou chegar mais perto enquanto eu fingia dormir. Seu rosto aproximou-se de meu pescoço, pude sentir sua barba quase crescida e seu aroma da noite anterior. Inalou meu perfume e o toque de seus lábios acariciou meu rosto. Eu arrisquei abrir os olhos para fitá-lo pelo o que poderia ser a última vez, e me peguei presa em seu olhar penetrante.
 Subitamente, suas mãos me alcançam, seu toque me arrepia e seu sorriso atinge os olhos. É você me perguntando: "Posso ficar mais um pouco?". É quando eu percebo que a sua fuga... Sou eu.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Uma boa dose de mim, por favor.


Eu nunca fiz parte da "turma legal" de lugar nenhum. Nem da escola, da igreja, da faculdade ou do inglês. Eu sempre fui a coadjuvante dos cenários da minha vida. Estive nos cantos observando, calculando e pensando em tanta coisa que me tornei muito boa na arte de me desligar do mundo por alguns instantes. Infelizmente, não é o tipo de coisa que faz as pessoas suspirarem de orgulho. Ser meio solitária não é divertido como estar entre a galera das piadinhas e das conversas fiadas, mas é, de certa forma, edificante.
 Assim como ficamos à espera de alguém disposto a nos livrar de nossa solidão, nos ocupamos com tanta atividade mental que nos ligam à questões filosóficas e interiores, carregadas pela busca de sentido, que a ideia de abrir mão deste tipo de personalidade não só é questionável, como também quase impossível.
 Perdi as contas de quantas vezes me esforcei para sufocar quem sou, me escondendo sob uma máscara forçada de extroversão. É claro que detalhes de minha introversão sempre acabam escapando de um jeito ou de outro, e isso ficava nítido quando, diante de uma conversinha fiada sobre o tempo ou música eletrônica, tudo o que eu fazia era soltar um sorriso que não chegava a atingir os meus olhos.
 Meu "sorriso de educação" sempre foi um matador de climas. Era a prova de que o papo não fluiria, a cantada não daria certo ou que o ponto de vista de fulano era carente de argumentos plausíveis - ou era apenas estúpido mesmo.
 Não importa o quanto eu tentasse ser alguém que, de fato, não sou, eu nunca poderia fingir paixão por algo ou alguém. O brilho de fascinação em meus olhos é aquele tipo raro que aparece vez ou outra pra provar que ainda existem coisas capazes de surpreender em um mundo cujas relações tornaram-se tão previsíveis. Um bom filme, com enredo intrigante e um final de fazer os olhos lagrimejarem. Uma frase bem colocada, com um timing perfeito e o impacto necessário para atingir os limites da razão e alcançar o coração. A harmonia saindo do violão ou o frenesi que só o tocar dos corpos, junto com o olho no olho e a química certa entre duas pessoas podem causar. Sabe como é, eventos memoráveis e, ainda que simples, intensos.
 Depois de passar tanto tempo sacrificando minhas vontades numa tentativa falha de ser quem as pessoas esperavam que eu fosse - seja para estar dentro de um padrão aceito socialmente ou para aparentar ter características necessárias para estar em um grupo em particular - eu achei que não seria ruim dar uma chance de ser, pela primeira vez, eu mesma.
 Foram anos me descobrindo e, ao mesmo tempo, me escondendo. É estúpido se apegar à crença de que não gostarão de quem somos antes mesmo que possamos nos dar a oportunidade de nos mostrar. Quando se escolhe ser verdadeiro consigo e com os outros, o preço a ser pago pode ser bem alto, geralmente porque crescemos acreditando que devemos nos moldar a todo tipo de personalidade que nos é imposta.
 Mas essa autenticidade, mesmo sendo tantas vezes dolorosa, nos ajuda a manter quem é verdadeiro por perto. Eu, por exemplo, não sou nem de longe a pessoa mais popular nos grupos sociais em que estou inserida. Também não tento ser. Ao me manter verdadeira, me sinto confortável dentro de certos limites que eu impus a mim mesma, como o de não tentar chamar a atenção para compensar uma carência ou entrar em um confronto para poder sustentar esta mesma tentativa de ser o foco.
 É claro que consegui aprender que passividade não pode ser sempre um fator positivo. Escolhi enfrentar minhas lutas usando o meu melhor como munição ao invés de continuar me escondendo para me manter viva. É importante compreender que não há vida sem um propósito, e não há propósito a ser conquistado sem que demos a cara a tapa algumas vezes.
 Me aceitar me deixou mais leve, me fez perceber que aquele peso sob meus ombros era o acúmulo de diferentes tipos de pessoas que não poderiam ser inseridas a mim, porque meu eu é perfeitamente adaptável àquilo que lhe é benéfico.
 Eu fui a festeira, a namoradeira, a barraqueira, a boazinha, a "aventureira", a mente aberta e a engolidora de sapos. Eu sorri por educação, fingi que estava tudo bem quando nada estava bem, aceitei pontos de vista sem nexo para evitar um conflito declarado e ri diante de palavras que me machucaram como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Eu fui forte quando tinha todo o direito de mostrar minhas feridas - só pra provar que eu não sou de ferro, eu também posso sangrar, caramba! - e usei o silêncio como resposta para todos que me fizeram interiorizar minhas tristezas sufocadas.
 Talvez isso soe como um ato de independência exagerado - dane-se - mas neste momento, me isento da responsabilidade de estar em constante acordo com as expectativas do mundo.
 Já me bastam as minhas.


sábado, 5 de abril de 2014

Atrevimento


Eu entendi. Você me deseja. Na verdade, deseja o meu eu secreto. Aquele que eu tinha sufocado por medo de fracassar. O mesmo que me permiti abrir mão por me sentir no direito de passar meses sofrendo por algo que eu nem mesmo lembro mais o que era.
Você deseja a vitalidade e a paixão pela vida que eu havia deixado jogada às traças no porão enquanto me inundava no aparente doce charme da solidão.
Não me leve a mal. É que meus pensamentos eram apenas meus. Não ter que dividi-los foi diferente de não querer fazê-lo. Mas gente como eu escolhe de forma rigorosa quem vai ser digno de escutar tamanha confusão emocional. Minha confusão emocional.
Eu quis sim te poupar de minhas particularidades sombrias, meus medos discretos e minha coragem sufocada. Dividir minha loucura me pareceu o caminho para que pudesse descobrir minhas vulnerabilidades. E eu não queria isso.
Queria que pensasse em mim como uma "pessoa difícil", que não gosta de perder tempo jogando conversa fora. Seria muito mais fácil se me visse como a chata metida à intelectual, que ouve música antiga e lê livros de sociologia só pra se exibir.
Mas você viu minhas particularidades. Você achou bonito o que eu sempre achei ridículo em mim, compreendeu que meus estilos musicais não passavam do meio para que eu chegasse ao meu refúgio da realidade. E por compreender que estava muito difícil para mim sonhar com os pés no chão, conformando-me apenas em manter aqueles deliciosos paraísos em minha imaginação, se dispôs a me provar que viver os sonhos não era uma utopia. Que eu podia - e devia - transformá-los em objetivos.
 Acontece que eu passei a ousar de novo. Eu me atrevo a ser feliz porque você se atreveu a não desistir de mim.
 Sinceramente, obrigada.

domingo, 26 de janeiro de 2014

We're boring, man.


 Não há nada pior do que um homem que fala demais.
 Na última vez que tive a infelicidade de me encontrar com um desses, juro que nunca havia passado tanto tempo sem ouvir o som da minha própria voz. Tudo o que eu fazia era balançar a cabeça, sorrir de forma forçada e ás vezes soltar uma risada fingida, só por educação.
 Acho terrível essa maneira que algumas pessoas têm de não dar a oportunidade de escutar de vez em quando. Não é só uma questão de bom senso, também é estratégico. Em minha experiência, posso afirmar que é só perceber que alguém é um bom ouvinte e o indivíduo, sem nem perceber, acaba de dar um passo rumo à algo promissor - seja um beijo de boa noite ou um próximo encontro no "país das maravilhas".
 Me dei o direito de me eximir do grupo dos que não sabem ouvir. Sou tão ótima ouvinte que não é difícil sentir o fardo sobre os meus ombros. Dependendo de quem for, pode ser extremamente cansativo fingir interesse através de gestos e expressões que, ao invés de acelerar o fim do processo, só faz com que ele passe mais devagar.
 Álcool sempre ajuda porque é como se tudo ficasse mais engraçado, bonito e interessante. O problema é quando se está sóbrio. Sem a porcentagem mínima de álcool no sangue fica difícil impedir a pergunta que vai definir o futuro daquilo que poderia se transformar numa relação: "Por que isso aqui está tão chato?".
 Juro que cheguei a ler um ótimo artigo sobre dar oportunidades às pessoas e deixar que o tempo preparasse o terreno para  a intimidade necessária que constrói boas relações - e tenho completa ciência de que isso inclui aceitar e conviver com as coisas boas e ruins de alguém. O problema é que eu mal podia lembrar deste texto enquanto olhava para o relógio disfarçadamente, torcendo para que o tempo fosse meu camarada e passasse mais depressa.
 Eu estava com um sentimento nostálgico tão forte que não só comecei a comparar meu presente com o meu passado, mas também cheguei a desejá-lo de maneira tão imprudente e idiota que uma parte ruim dele voltou, e foi como se eu tivesse dezesseis anos de novo, tentando fazer algo dar certo apenas porque queria que alguma coisa diferente acontecesse.
 Felizmente eu não tenho mais dezesseis anos e minha estrutura mental é muito mais resistente à erros estúpidos do que costumava ser. O autor do tal artigo podia até estar certo: não dá pra desistir de alguém só porque um defeito ou outro fica mais visível no segundo encontro. Mas é claro que eu não contava com a possibilidade de me sentir da maneira que me sentia há alguns anos em relação à isso - o que não é bom.
 Se não retroceder é o meu lema, a ideia de abrir mão de uma pessoa que faz com que eu me sinta como se estivesse em uma das piores fases existenciais da minha vida é mais inteligente do que desperdício.
 Eu prefiro esperar por alguém que desperte algo totalmente novo em mim. Aquele tipo de coisa que a gente espera a vida toda, sem realmente saber que estava esperando. Melhor manter essa esperança do que correr o risco de fazer parte de uma relação entediante... Na sobriedade e na bebedeira.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Praticidade a là Schwarzenegger


 Quando eu era criança e via as coisas mudando drasticamente, começava a pensar que aquilo era o fim do mundo, ou pelo menos o começo do fim. Fico imaginando como teria sido se tivesse levado a sério o "Exterminador do Futuro". É possível que ficaria aterrorizada e queimaria todos os bips do meu pai - sabem do que estou falando.
 Só que o "fim do mundo" não passava de avanço, especialmente avanço tecnológico. Teria sido mais interessante - ou assustador - acreditar que o mundo acabaria devido ao descontrole das máquinas. O velho clichê da criação voltar-se contra o criador.
 O tempo passou bem rápido e de lá pra cá já ouvi e sobrevivi a mais fins de mundo que alguém conseguiria em uma ficção. Mas o avanço ainda me assusta um pouco. Justo eu que considero "praticidade" uma de minhas palavras preferidas.
 Acredito que o que me assusta é ter toda essa disponibilidade de tempo e economia de esforço disfarçados através dos produtos "revolucionários" da polishop ou dos robôs que podem substituir tão bem o trabalho humano que o fariam até melhor do que nós.
 E a partir daí fica difícil não tentar combater a sensação de que somos tão substituíveis que nossa existência não passa de mera formalidade. A regra é clara: cresça, estude, arranje um emprego, forme uma família, se aposente e continue se rendendo à gente mais poderosa do que você. E eu nem mencionei os detalhes sórdidos - se possível faça isso antes dos 30.
 Deveria culpar o senso comum por tamanha imposição sobre como devo levar a minha vida, me revoltar contra o sistema e tudo mais. Porém, eu faço parte dele. E assim como você, eu também sonho com o emprego perfeito, o amor da minha vida e ás vezes até em formar uma família - porque ninguém quer viver sozinho. Da mesma maneira como desejo pela boa aparência que o currículo da vida exige nas entrelinhas.  Deve ser porque nossos sonhos não passam dos reflexos do sonhos dos outros. Nós não os originamos, fomos simplesmente inspirados por pessoas que foram capazes de imaginá-los em primeira mão. E se a nossa vontade é, de fato, apenas melhorar todo o processo, restará algum espaço para as coisas realmente novas?
 Nem falo tanto de smartphones mais interessantes ou carros que, sei lá, se transformam em "Transformers". Mas se conseguimos tanto avançar nas mais diversas áreas, porque é que a verdadeira novidade seria dar prioridade à coisinhas como lealdade, amor e compaixão? Porque se há realmente algo bom em não ser tão racional como robôs são, é exercer a parte boa dos sentimentos, ao invés de explorar com tanto fervor o lado ruim deles.
 O meu medo de criança era, a princípio, o de ver tudo se acabando diante dos meus olhos numa sequência de eventos destrutivos e dolorosos. Agora, quase beirando aos 21, eu percebo que o fim do mundo já está aqui, e não porque estamos muito à frente de nosso tempo quando se trata de tecnologia, mas porque nós mesmos nos robotizamos.
 Felizmente, não tive coragem de vender minha alma em troca de mais praticidade, mas de quem é a garantia de que já não estamos fazendo isso sem nem sequer percebermos?

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"Encontrar" pessoas


 Primeiros encontros são esquisitos.
 Eu mesma costumo imaginar todos os desastres passíveis de ocorrer antes, durante e depois do ato em sim.  Mas até que me considero boa nesse tipo de coisa, basta um cara que saiba falar de algo que vai além da academia - na verdade, não mencionar este assunto é essencial! E é claro, que não critique meus gostos musicais ou me ofenda de "brincadeirinha" quando diz que talvez não seja uma boa ideia eu comer pão.
 Estas possibilidades de caos são super comuns, e mesmo assim não nos impedem de sentir frio na barriga. E enquanto algumas pessoas estão preocupadas na maneira como serão vistas, eu estou preocupada com as desculpas que vou usar quando a coisa toda ir por água a baixo.
 Talvez seja negatividade, mas talvez seja apenas uma maneira indiferente de lidar com as expectativas que um acontecimento deste porte venha a oferecer. E acredite, as expectativas de um primeiro encontro podem se tornar tão surreais que a volta para a realidade pode chegar a nos custar semanas!
 Eu não prego a indiferença e a falta de esperanças quando se trata de conhecer pessoas para flertar com elas. Sou super a favor do flerte! Então porque não limitar as expectativas de um primeiro encontro em simplesmente cantar de forma divertida o cara gracinha que te chamou pra sair? Ou assistir ao filme que você provavelmente veria sozinha, mas decidiu ir com o rapaz gentil que parece ter uma quedinha por você mas disfarça sobre o rótulo de "amigo"?
 Os melhores momentos que tive foram com pessoas inesperadas. A risada sai mais natural, o tempo passa tão rápido que de repente já é meia-noite, o papo flui de maneira tão espontânea e desinteressada que se torna interessantíssimo.
 Preparar-se para um encontro como quem se prepara para entrar em um relacionamento sério é esquecer do que é realmente relevante em todo esse ritual de conhecer alguém novo. E me desculpem os muito românticos, mas não há nada melhor do que esquecer todo o planejamento para o "encontro perfeito" e deixar a coisa toda rolar naturalmente.
 Afinal, a pessoa certa - e até mesmo a errada - vai se impressionar muito mais com atitudes autênticas do que com os "Doze passos para ter o encontro perfeito".