sexta-feira, 3 de abril de 2015

Em defesa dos introvertidos


Quando era adolescente, não achava essa coisa de ser tímido tão fascinante. Na verdade, nunca foi fascinante pra mim. A palavra "introvertido" sempre me remeteu à algo negativo. Pra mim era um grande mistério tentar entender qual era o real motivo de alguém achar nisso algo positivo. Com certeza foi um teste de paciência e, eu diria até de amabilidade, mas acho que isso é ir longe demais.
 De fato, meu problema com a timidez diminuiu com o passar do tempo, mas a tal da introversão continuou. E como poderia ir embora? Timidez é medo da rejeição, introversão é personalidade.
 Se soubesse disso naquela época, talvez entrasse em estado de desespero. E como não? Quando se tem 15 anos, ser extrovertido é a melhor coisa que pode acontecer. Ninguém fica achando que você tem "sérios problemas em se relacionar" ou fica sugerindo que você saia mais, namore mais e pare de ir à biblioteca quando o objetivo é cabular aula - uma estranha característica minha nos tempos de escola.
 Por outro lado, ser introvertido numa fase em que tudo o que você quer e sente que precisa fazer é se definir, bem, dificulta as coisas.
 Demorou um tempão pra que eu parasse de ficar "tentando me encontrar". A gente tem essa mania de tentar ser um pouco de tudo só pra se encaixar e acaba se frustrando quando percebe que nenhuma daquelas personalidades nos pertencem.
 Só que o tempo passa e hora ou outra a vida nos coloca na posição de se aceitar ou continuar inventando personalidades. Se chegar nessa fase, eu sugiro que seja você mesmo.
 Sei que a mensagem é deveras piegas, mas é bem realista. Viver de aparência é extremamente cansativo.
 Depois de um bom tempo partindo da premissa de que inventar personalidades era bem mais interessante, o cansaço das aparências finalmente me dominou e eu me vi numa crise de identidade - quem nunca?
 Fico feliz por Susan Cain ter escrito o sensacional "O poder dos quietos". Foi a primeira vez que me senti tão absolutamente sortuda por ser introvertida. Há algo de muito charmoso e interessante em estar desgarrada dessa ideia dominante de que ser extrovertido é o que há!
 Introvertidos são interessantes. Abominamos conversas fiadas, mas adoramos nos aprofundar nos mais variados assuntos. Podemos não ser os mais falantes em uma conversa, mas essa aptidão de ouvir mais nos ajuda a compreender o outro de maneira mais abrangente, solidária. Nos ensina a observar aspectos mais profundos do que é dito, como é dito e porque é dito.
 A ideia de que somos sozinhos e de que gostamos disso é totalmente distorcida e distante da realidade. Temos anseio em conhecer pessoas, mas buscamos relacionamentos mais profundos e resistentes. Não temos muita paciência para o que é superficial, por isso gostamos de mergulhar naquilo que é intelectualmente e emocionalmente relevante. Por isso é que conto os amigos verdadeiros nos dedos e ainda sim me sobra espaço.
 Quero deixar claro que não estou pregando contra os extrovertidos. Na verdade, eu adoro pessoas extrovertidas. Elas nos desafiam, nos intrigam, nos encantam, nos complementam. Alguns sortudos podem até ter o que a Susan chamou de "o melhor dos dois mundos" - algo entre o introvertido e o extrovertido.
 Só estou tentando fazer com que entendam que há mais na introversão do que se pode imaginar. Eu costumo sorrir feito boba quando percebo que estou começando a desvendar alguém, e com o passar do tempo vejo que ainda há muito a ser descoberto.
 Por isso, numa época em que o Facebook tem definido as pessoas, eu acredito que podemos e devemos ir além e ampliar o nosso olhar para aqueles que não conseguimos entender, mas que ainda têm a muito a nos mostrar.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Entrega



Independência pra mim é essencial.
Não é que eu esteja em uma busca frívola e desenfreada por autonomia, mas não dá pra negar que este é um dos meus objetivos mais importantes. Ouso dizer até que é uma das bases dos meus mais loucos sonhos.
Então, desde que era mais nova, tentar fazer o máximo possível por conta própria era minha prioridade. E nesta lista incluía aguentar as zoações da galera da escola, arranjar um trabalho, lidar com as emoções frenéticas de adolescente e construir relações com as pessoas à minha volta com a convicção de que é importante não se escorar nos outros.
Ter esse princípio básico gravado em minha mente moldou a minha personalidade, minhas metas pessoais e a maneira como lido com as áreas da minha vida.
Recentemente, me dei conta de que ser tão autossuficiente sempre é cansativo. Poder confiar em alguém para se apoiar - repare que desta vez usei o verbo "apoiar" e não "escorar" - é tão importante quanto buscar independência.
Felizmente, a melhor coisa que me aconteceu este ano foi me dar conta de que não preciso carregar todo o fardo sozinha. Espiritualmente falando, estou ótima, obrigada. Ter a certeza da salvação em Jesus Cristo abriu os meus olhos, quebrantou as barreiras em meu coração e me trouxe à vida novamente.
E este despertar acabou por trazer à tona antigas aspirações, objetivos e até mesmo uma velha e saudável ambição.
Estas coisas surgem do nada. Voltaram em um momento em que achei ter reencontrado a felicidade, quando na verdade ainda não havia sequer achado a mim mesma. E ao me dar conta de tudo isso, foi extremamente difícil perceber que eu havia construído um castelo de ilusões, e pior, colocado pessoas dentro dele.
Então, lá estava eu achando que me apaixonar resolveria meus problemas, ou que tentar parecer alguém que não sou traria a aceitação das pessoas, e a aceitação das pessoas, consequentemente, me faria feliz.
Caramba, galera! Já me enganei tanto com isso. Parece besteira quando, na teoria, condenamos os erros seguidos dos outros, apontando o dedo e afirmando que nunca seríamos capazes de cometer a mesma burrice duas vezes. Quer dizer, sério? Eu já perdi as contas de quantas vezes cometi o mesmo erro.
Óbvio que me recuso a achar que isso é pura burrice. Eu diria que está mais para um inclinamento meio inconsequente, porém inconsciente, que temos de nos meter em roubadas. Culpa das nossas emoções. Se tem algo que pode nos trair de forma tragicômica, sim, são nossas emoções.
Quer dizer, pense bem, meu caro leitor: quantas vezes você já chorou - bêbado ou não - por alguém que nunca nem ligou pra você? #EmoçõesFAIL. E quantas vezes você já se deixou levar por um sentimento de pura carência achando que o primeiro que aparecesse na sua frente e te soltasse um sorriso seria o amor da sua vida, que te tiraria da solidão destes dias tão cinzas e chatos? Mais uma vez: #EmoçõesFAIL.
Não é que sentir seja uma coisa ruim. O problema é quanto a gente SÓ SENTE.
Essa cultura de Facebook tem mania de nos levar aos extremos, sabe? Ou a gente ama, ou a gente odeia. Quer ver?
Nos apaixonamos loucamente por alguém, mas só é a coisa não dar certo que já dizemos a nós mesmos - bom, hoje em dia dizemos ao mundo - que nunca mais nos apaixonaremos de novo. Nunca mais confiaremos de novo. Nunca mais ouviremos aquela música do Jorge e Mateus de novo. Que saco, hein?
Me pergunto se não podemos simplesmente ter um meio termo. A paixão não deu certo? Bola pra frente, talvez a próxima dê.
O problema é que ficam por aí pregando que razão e emoção não andam juntas, quando na verdade as pessoas deveriam estar mais preocupadas em usarem a cabeça em conjunto com o coração pra não acabarem dependentes ora de um, ora de outro.
O fato é que minha cabeça e meu coração passaram a trabalhar em conjunto, e vou te dizer: eles formam uma ótima dupla!
A partir desta fusão magnífica, me dei conta daqueles sonhos que mencionei no começo deste texto, e do quanto eu tinha capacidade de alcançá-los. Tudo o que eu teria que fazer era parar de sentir pena de mim mesma, parar de dar audiência para a carência que me dominava e parar de tentar projetar a imagem de alguém que eu não sou - uma pessoa cujos sonhos eram diferentes dos meus, apenas porque sonhar mais baixo era mais fácil.
Então, aqui estou eu garantindo a vocês que eu acordei pra vida. Que o meu abrir de olhos não teve a ver simplesmente com uma epifania, como eu tenho dito por todos estes anos - sério, quantas vezes já usei a palavra "epifania" neste blog? - mas muito mais com um despertar espiritual que me tirou do centro do meu universo e passou a centralizar quem é digno de toda honra e glória: Deus.
E ao contrário do que pensam por aí, isto não me levou à alienação, mas à certeza clara de que realmente fui liberta.
Lembram dos sonhos que mencionei? Bem, primeiramente, eles não eram meus sonhos. Eram os sonhos de Deus, e eu os havia largado. E agora, além deles, Deus me trouxe à tona novos sonhos. Eu tenho a honra de desejar pelos sonhos que o Senhor preparou para mim. Não é simplesmente maravilhoso?
Agora, vamos recapitular. Nos momentos em que agi conforme às minhas emoções apenas, me tornei emocionalmente vulnerável e desenvolvi carência pela aceitação e o afeto das pessoas - um sorrisinho e puff! Já estava apaixonada. E quando eu agia apenas com a minha cabeça - a razão - estava em constante estado de solidão, revolta e renúncia, pois a realidade de uma sociedade massacrante como a que vivemos me tornava pessimista e me fazia preferir conseguir coisas menos significantes, porque elas são bem mais fáceis de serem conquistadas, e me impulsionava à negação.
Porém, a liberdade espiritual me trouxe paz, segurança e esperança. Entregar nossas vidas à Deus não é abrir mão da razão. Pelo contrário. Seguir a Deus nos impulsiona à conquistar o impossível e, para isso, nos dá coragem e ousadia para fazer o que for necessário, fazendo uso de nossa inteligência - que é uma dádiva. E quando colocamos o nosso coração no meio disso, estamos exercendo a nossa fé, confiando nossas vidas Àquele que nos salvou de um futuro de horror e nos deu a chance de uma vida eterna, sem dor, sem angústia, sem sofrimento.
O que quero dizer aqui é: Não é só sentir, não é só ter razão. Também é buscar, viver e conviver com a mudança.
Desejo do fundo de meu coração que muitos possam ter o mesmo despertar que eu tive. Que parem de viver a vida que os outros sonharam para eles. Que libertem-se do medo da opinião pública e que consigam ser verdadeiros com eles mesmos.
Uma vida dedicada a agradar as pessoas só nos leva ao engano. Porém, comece a agradar a Deus e você verá aquilo que os nossos medos mais supérfluos nunca nos deixaram ver: paz, vida, comunhão e liberdade.

Que Deus os abençoe.









quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quem é que manda?



Entrar no Facebook e ver as notícias parece uma forma muito mais eficiente de se manter atualizado do que comprar um jornal na banca – especialmente se for às 6 da manhã. Além de prático, é muito mais rápido e resumido. Esta tem sido a realidade de muitos. Uma prova de que o Facebook é muito mais do que um meio de exibir ‘selfies’.
Para os entusiastas das teorias das conspirações, estamos presos em uma armadilha, mas não nos damos conta – afinal, é divertido. Já dizem muitas mães e tias por aí que é o fim dos tempos e que nunca houve tanto egoísmo e falsidade como agora.
Partindo para o lado mais objetivo de todas estas afirmações, esta é provavelmente a era mais individualista de todos os tempos. Por irônico que pareça, a rede social que junta também separa. Mas a recíproca também é verdadeira.
Apesar de estarmos cada vez mais ausentes de forma física, tecnologicamente falando, somos um conglomerado de pessoas com certos níveis de poder que somados formam uma massa de expressão significativa. E é possível ver isso nos maiores movimentos virtuais de 2013, como o #vemprarua, resultado dos protestos ocorridos em Julho do mesmo ano, ou a página “Diário de Classe”, da estudante Isadora Faber – perseguida e admirada por suas denúncias contra o sistema de educação pública.
Mas como nem só de idealismos vivem as redes sociais, não é de se admirar a quantidade de seguidores dos blogueiros e artistas mais populares da atualidade. Gabriela Pugliesi – a blogueira fitness com um tanquinho quase surreal para as mulheres aqui de baixo - faz sucesso com seus 566,251 mil seguidores no Instagram. Nem chega perto do craque Neymar Jr, é claro, que já ultrapassa a margem de 11 milhões de seguidores. Uma verdadeira disseminação de ideal de beleza e o sonho do futebol, compartilhado por toda – ou quase - uma nação de brasileiros.
A narrativa por detrás de tanta beleza, juventude e determinação – mesmo que o lema seja, em sua maioria, algo banal como “No pain, no gain” – é uma poderosa fonte influenciadora, que molda pensamentos e hábitos de maneira muito eficaz. Porém, este nível de influência e admiração atingido por carismáticos “populares” diz respeito a propósitos mais superficiais e cotidianos. Os seguidores da garota fitness e de Neymar estão, na verdade, buscando adequar-se a um mundo em que bundas e futebol são mais valorizados do que conhecimento, por exemplo.
Artistas como Beyonce, Lady Gaga e Nick Minaj não surgiram instantaneamente com uma ideia mirabolante para conquistar toda uma geração. Assim como “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, por trás de um grande artista há sempre um grande empresário – Jay Z que o diga.
Não estou aqui menosprezando as formas de poder tão visíveis em nossa Timeline – ou no VEVO. O propósito é ressaltar a simples e astuta realidade de que quem manda na narrativa, manda no mundo.
Destaco aqui os ‘contadores de histórias’ e inventores de movimentos independentes - como Rafinha Bastos e suas polêmicas “causas” em sua página do Facebook - ou co-dependentes, como Neymar e a CBF. Ou, permitindo-se mergulhar no universo das conspirações – Obama e os Iluminatis.
O poder verdadeiramente dito está escondido por detrás de camadas de poderes mais “expostos”, por assim dizer. É aquela história de “o chefe do meu chefe é quem dá as ordens”.
Se a intenção fosse destacar qual a forma de poder realmente benigna para uma sociedade habituada ao caos, ela viria de uma mudança estrutural significativa na educação.
Porém, benigna ou não, isso nada mais é do que a base de todo poder: Conhecimento. A maneira como ele será usado – para o bem ou para o mal - é outro assunto.

Aqueles cujo poder está nas mãos – independente de qual for o nível – nos impelem a reagir, seja lá qual for o propósito. Basta um olhar mais atento: uma pequena mudança na narrativa e mais uma vez estamos dançando conforme a música de alguém. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ser complicado



Não tem nada pior pra uma pessoa complicada explicar o que é que a torna tão complicada. Ela sai em busca de verbos e sinônimos, morde os lábios, faz careta, bagunça o cabelo e nada de sair a tal explicação. Só pra "ajudar", ela não quer ser óbvia, e muito menos ligar a característica à frase daquela tão famosa música: "complicada e perfeitinha".
Ser complicado não tem nada a ver com perfeição. Tem gente que acha que é charme. Eu vejo como um embaraço. Do meu ponto de vista, ser complicado é não conseguir verbalizar os sentimentos com clareza. É encontrar na paranoia um chão pra chamar de seu. É se dizer 'realista', mas na verdade estar empenhado em relembrar e prever fatalidades.
Quando saio por aí tentando explicar que sou complicada, vou logo deixando um alerta de fuga: a hora é agora, cara!
Nas raras vezes em que alguém decide ficar, nunca sei se a pessoa está curiosa, entendiada ou se só quer me desafiar mesmo. Infelizmente, é justo nestas vezes em que eu mesma boto pra correr quem está tão interessado em saber o que é que diacho se passa na minha cabeça! "Fuja para as colinas!", ecoa um grito mental quando o sujeito continua me olhando com cara de "o que mais? Diz aí!".
É porque o meu "o que mais?" é cheio de segredos e confusões que as vezes até eu tenho que esquecer a ideia de tentar entender.
Não tem nada de nobre ou atrativo em ser complicada.
Bom mesmo é ser bem resolvido, sem neuras, sem traumas. Ouvir um elogio e não desconfiar do significado por trás daquilo, ter uma pessoa sendo extremamente legal sem que você tenha que sair procurando um defeitozinho pra lembrar que ninguém é mesmo perfeito - um pedaço de brócolis no dente, sei lá!
Complicação pode não ter nada a ver com perfeição, mas nos torna detalhistas e chatos com coisas que deveriam ser insignificantes. Claro que, a meu ver, estas coisas são classificadas de acordo com a personalidade de cada um, mas elas ainda estão ali, andando lado a lado.
Porém, a maior característica que percebo em pessoas complicadas é o fato de que elas não querem se descomplicar. Há algo de muito emocionante em estar à procura de experiências mais fortes, carregadas de detalhes ínfimos e que parecem fazer toda a diferença. Aquilo já faz parte delas. É o seu charme, como diriam alguns.
Mas, de complicada pra complicado? Desencanar não faz mal à ninguém. De vez em quando a gente precisa simplesmente abraçar aquilo que entra na nossa vida com a intenção de nos fazer feliz - mesmo que talvez isso só venha a acontecer à longo prazo. Esse "querer tudo pra agora" que nos ronda está nos transformando em uma sociedade de ansiosos psicóticos, que buscam os defeitos alheios e não conseguem enxergar os próprios defeitos. Que se prende em idealizações idiotinhas, repletas de "eu" e desfocadas do "nós".
Minha vontade neste exato momento é simplesmente de descomplicar e encontrar o equilíbrio. A intenção, lógico, não é a de me transformar em exemplo de "Paz e amor", muito menos a de sair por aí dando lição de moral em todo mundo que cisma com aquela maniazinha chata do outro.
É que desconfio que, me libertando de todos estes traumas, neuras, ideais de beleza e de personalidades, vou acabar encontrando aquele tipo de coisa boa que nenhum complicado espera encontrar, mas que ao fazê-lo, não vai ousar questionar as razões e falcatruas que possam haver por detrás de algo que tem tudo para ser verdadeiramente bom.
Descomplicar faz parte da viagem. Então, a minha dica é: Viva... e relaxe.


domingo, 19 de outubro de 2014

As palavras


Eu sempre fui fã das palavras. Elas têm um poder tão impressionante de nos levar ao encantamento. De nos fazer imaginar e sondar aquilo que é simplesmente surreal e de aliviar aquelas dores chatinhas do âmago, sabe?
Vejo as palavras como um de meus refúgios para quando estou chateada com as pessoas. Chateada por elas não honrarem com tanto fervor a maravilha que é esse poder de encantamento. De apenas o usarem por usar. Por não darem real significado à algo que um dia foi tão expressivo e bonito.
É claro que, depois de se iludir aos montes com tantas palavras bonitas, a gente começa a entender porque é que ficam dizendo por aí que "falador passa mal". É porque palavras geram expectativas. Expectativas de que ações serão tomadas. Para o bem ou para o mal, foi selado um acordo em que nos livraremos da inércia que nos assola todos os dias.
Obviamente, más interpretações também estão aí para bagunçar e confundir. Estamos apressados por emoção e o 'querer tudo para agora ' faz com que deixemos passar batido aqueles detalhes, ora tão belíssimos, ora tão importantes.
Não tentamos mais compreender ninguém, contanto que já estejam dentro de nosso contexto prático. Encontramos o romantismo nas mensagens e o deixamos a desejar na vida real. Estamos tão mergulhados em nossos anseios sobre o que os outros dirão que nem nos permitimos sentir por nós mesmos!
Eu amo as palavras quando me rendo ao seu fascinante arsenal de aventuras, romances, guerras e utopias. Quando elas me fazem sentir estar em outra dimensão, livre de todos os meus problemas e medos, de toda a minha realidade, mesmo que por um curto espaço de tempo. Amo todas estas palavras em verso, prosa e poesia. Em livros largados às traças na última prateleira da biblioteca. Em artigos e colunas de gente que sabe transformar o 'real' em 'fantástico'. Em músicas que trilham a nossa vida desde à infância e nos ensinam a sonhar.
Mas palavras ao vento não me interessam. Promessas de sms não me fazem morrer de amores. Elogios à distância, mesmo quando tão próximos, não me arrepiam da cabeça aos pés e não fazem meu coração bater mais rápido.
Eu sou fã das palavras, mas ainda sou uma admiradora nata do olho no olho, do arrepio diante do toque da pele, do sorriso sincero, do "mostrar interesse" pessoalmente pelo meu dia, pela minha noite, pela minha história.
Sou admiradora daquilo que as palavras, em sua intenção mais frágil e bela, me ensinaram. Mas tenho o coração fechado para aquelas que contentam-se em serem apenas ditas, e não preocupam-se em serem vividas.

domingo, 12 de outubro de 2014

Amor de Tinder



Amor de Tinder não me cai bem. É algo frívolo. É um amor mais morno do que quente. Um buscar mais consequente. É ter promessa de perfeição e papo sem noção, conversa de elevador. É tipo amor delivery, com direito à promoção no domingo à noite: peça um e ganhe 2.
É cheio de carinha bom partido e vivido, viajado, aculturado, e todos os outros "ados". Pena que o auge da conversa é o "Tudo bom?". Dá vontade é de dizer: "Não! Não tá tudo bom! Eu esperava um poeta e me vem um clichêzão?!". Mas educadamente e seguido de uma carinha feliz a gente responde: "Tudo ótimo e vc?".
Amor de Tinder é uma extensão da realidade solitária que assola as pessoas. É abrir mão da primeira troca de olhares acidental, do meio sorriso sem jeito. É não ver a reação da outra pessoa ao falar contigo, as mãos suando, a fala trêmula, a risada nervosa, um olhar fugindo do outro e os pés... Ah, os pés, firmes no chão, sem sinal de fuga.
Amor de Tinder é prático. E vida prática pode ser boa em muitas áreas, mas não na sentimental.
Se é pra falar de amor, eu não quero amar "em praticidade". Quero amar devagar, beijar lentamente, sentir o tempo parar com o olhar preso em outro olhar. A praticidade eu deixo para os produtos da Polishop.
Amor de Tinder é vulgar, sem flerte romântico, sem elogio sincero, sem gostar simplesmente pelo gostar. É se atrair pelo o que não existe, inventar e moldar a perfeição.
É pedir pra ver foto de corpo inteiro, é cortar aquele assunto bacana sobre os Beatles no meio. É priorizar o cabelo bonito, o decote apertado, a barriga sarada e deixar pra depois aquela piada engraçada. Sim, porque piada boa é aquela que só os amigos entendem, ao te olhar com os olhos carregados de um misto de vergonha alheia e espanto por achar graça de algo que nem é tão engraçado.
Pra isso que serve a intimidade. Pra isso não tem aplicativo ou rede social que disponibilize tal dádiva de forma tão instantânea.
E de tudo isso, a única coisa que posso tirar do amor de Tinder é que ele pode ser tudo, menos amor de verdade.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Despertando o melhor



Sempre achei uma lindeza quando alguém dizia gostar de fulano porque ele o fazia ser melhor. Soa tão bonito para os ouvidos que dá até vontade de experimentar. Claro que, pra mim, esse tipo de coisa nunca aconteceu. As criaturas com as quais me relacionei eram, pelo menos as mais interessantes, do tipo mal caráter. E eu não era bem uma "vítima", era só uma garota buscando a forma mais branda de aventura e perigo.
Mas eles não despertavam o que havia de melhor em mim. É certo que na época nem eu sabia o que poderia causar em mim tamanho efeito, mas com certeza não era o bonitinho da academia.
Até então eu já sabia que relacionamentos amorosos sempre afetaram a minha vida de maneira não tão boa, e na maioria das vezes, quando pareciam caminhar para a seriedade, eram mais incômodos do que apaixonantes. E então eu fugia.
Eu não tinha me ligado no quanto isso impactou a minha vida. Quer dizer, eu sempre soube que em matéria de relacionamento amoroso minha nota nunca foi muito satisfatória. Mas me justificava saber como era estar tão apaixonada, nas raras vezes em que isso acontecia, e me entregar nesse tipo de paixão intensa e meio maluca.
Então, veja bem, eu sei o que é gostar muito de alguém e se imaginar tendo um futuro com essa pessoa. Assim como sei como é estar tão apaixonada e mergulhar de cabeça nisso mesmo ciente de que não há um futuro reservado.
Essa última citada foi a que realmente mexeu comigo. Sempre soube que era a adrenalina da queda que havia me atraído, mas não havia pensado direito em como seria quando estivesse tão próxima do chão.
Mesmo assim, o responsável por me influenciar de maneira tão inconsequente também não despertava o que havia de melhor em mim. Na verdade, passei tanto tempo acreditando que era bem provável que esse melhor talvez nem existisse aqui, que esqueci da teoria. Deixei para os filmes do Tom Hanks.
Agora as coisas estão diferentes. Eu mesmo nem me reconheço, o que é bom. Passei por uma transformação dolorosa, mas que no final valeu a pena. Ótimo! Porém, ainda me resta um pouquinho daquele medo de compromisso. A diferença é que agora eu entendo o que é realmente estar compromissado com alguém. É permitir que ela desperte o há de melhor em você.
Me peguei pensando que talvez eu nem queira esse melhor, que ele possa implicar em um tipo de perfeição que eu seria incapaz de manter, quem sabe até de alcançar. Que o melhor de mim pode nem me pertencer. Pode simplesmente ser uma pessoa diferente, criada por mim mesma para suprir a necessidade de ser feliz fazendo alguém feliz e, caramba! Que mega responsabilidade!
Só que depois de toda essa reflexão, parece muito mais aterrorizante não sentir esta forma tão nobre e genuína de amor e passar a vida entre um caso e outro, meio cheia, meio vazia.
Se eu adiar esse amor só mais um pouquinho, não é instinto de psicopatia, não. É só desejo reprimido. Mas desejo de descobrir as outras formas de amor primeiro... Na arte, na gastronomia, na profissão, nos lugares.
É medo de me prender e, consequentemente, me perder. Medo de perder a parte que me define.
Assim, só aceito entregar o meu melhor pra quem conseguir aceitar o meu pior. Perfeição, meu querido, não é a minha praia.