domingo, 4 de agosto de 2013

Crônica de bar


 "Então vamos lá. Mais uma tequila!", pensou a garota enquanto observava o homem à sua frente balbuciando palavras que ela sequer entendia.
 "Garota" era, na verdade, um termo que ela passou a detestar. Ele a enxergava dessa maneira, e isso a irritava. Era uma mulher, estava bem convencida disso. Claro que isso não explicava o porquê de estar tentando se embebedar para aguentar mais meia hora de conversa fiada. Ele só falava sobre ele. Toda aquela "experiência" já foi interessante algum dia, mas agora era um saco. Como na primeira vez em que aceitou almoçar com o dito cujo depois dele tanto insistir em lhe tirar de seu estado animador de paz.
 Desejou saber em que momento exatamente o tirou da seção de "caras chatos" e o pôs em "caras até que interessantes". Num lapso de memória, lembrou que ele costumava deixá-la falar. Era quase como se fosse mestre em fazer mulheres acreditarem que são interessantes e diferentes. "Que golpe baixo", pensou enquanto descia a terceira tequila.
 Ela sabia aonde daria aquele papo todo: no motel mais próximo. Então, devia parecer selvagem e desapegada, como na primeira vez. Estava certa de que evitaria todo e qualquer momento em que seus olhos se cruzassem quase como que, romanticamente, vamos dizer assim. Da última vez aquilo deu em merda.
 E qual é a razão, afinal, para mulheres se deixarem levar tão facilmente por momentos de pura excitação? Não é óbvio que eles são passageiros demais para sequer serem focos de sentimentalismo?
 Não precisava disso. Mais uma desilusão amorosa não estava em seus planos e, honestamente, detestava o fato de que poderia já estar gerando uma coleção delas. Afinal, ele não valia tudo isso.
 E enquanto ele falava e falava, lembrava do episódio de um desenho animado que vira há alguns anos. Um garotinho pedia à seus padrinhos mágicos que lhe tirassem todas as emoções. E quando o fizeram, a garota que ele tanto gostava, mas só o maltratava, estava realmente se esforçando para fazê-lo se sentir um idiota - como de costume. Aquele olhar vago e indiferente do garotinho diante da aprendiz de biscate não saiu de sua cabeça, e ela pegou-se invejando um desenho animado.
 "Ah meu Deus, ele não para de falar", pensou com pesar, sentindo-se um homem diante de uma mulher tagarela e cheia de si. Ao menos ela, no papel de mulher, estava tendo bom senso para fingir-se de interessada. Ou talvez fosse só estupidez mesmo. Quem disse que ela devia sequer ligar em agradá-lo? Ela é quem devia estar no comando!
 A tequila começava a fazer efeito, e ela sentiu-se girar. Seus olhos se apertaram para enxergá-lo mais claramente, e quando deu por si, revirava-os diante de alguma piada sem graça que ele havia contado. É, não estava mais com saco para aturá-lo.
 Seu subconsciente torcia para que ele não acabasse desencadeando uma onda de machismo dissimulado para que não despertasse nela a feminista radical que costumava ser quando estava revoltada com algum de seus peguetes. E acredite, ele era um peguete babaca em potencial naquele momento.
 Quando finalmente parou de falar e resolveu pedir a conta, soltou mais uma piadinha de direitos iguais que envolvia uma de suas "fascinantes" teorias sobre mulheres pagarem a conta do bar. Foi com gosto que ela levantou-se, torcendo para não cambalear em cima dos saltos, armou-se com seu sorriso mais cínico e disse:
- Continue com essa filosofia e você não pega mais ninguém.
 Naquela noite, não houve idas à lugar nenhum que não fosse sua casa, e mesmo bêbada, ela o cumprimentou com um aperto de mão e saiu cambaleando, cheia de dignidade, em direção à porta. Rindo por dentro enquanto sentia germinar a certeza de que naquele corpinho, o babaca não tocava mais.

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