sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Crônica


 Nós passamos da nossa estação. Eu estava louca pra soltar um "Eu te avisei", mas ele o fez primeiro numa tentativa péssima de me imitar. Sabia muito bem que minha voz não soava assim tão fina e que eu não fazia caras e bocas como havia interpretado. Mesmo assim eu ri.
 Agora, tínhamos duas escolhas: descer na próxima e caminhar até nossos destinos - separados por algumas ruas - ou permanecer ali naquele vagão, vendo as estações passarem, esquecendo dos compromissos que nos aguardavam. Seria isso? Comentei que não seria uma boa ideia ter que aguentá-lo por mais estações, especialmente sem destino como estávamos. Ele riu na minha cara e disse algo sobre eu odiar vê-lo partir...Era melhor eu aproveitar.
 "Quem você pensa que é?" - pensei, ultrajada.
 Mas a pergunta foi mais pra mim do que pra ele. Quem ele era para mim, afinal?
 Tivemos lá nossas diferenças no começo. Era uma relação estranha, cheia de altos e baixos, momentos de crises cinestésicas seguidos por uma tremenda falta de lucidez e, no final, desabafos sobre como nossas vidas amorosas eram terríveis do ponto de vista ideal.
 Eu o conhecia bem. Bem até demais, suponho. Estávamos naquele nível em que a intimidade é tanta que pequenas gafes nem nos incomodavam mais.
 Agora estávamos naquele vagão, que esvaziava muito rápido, nos deixando a sós num jogo de "quem desvia o olhar primeiro". E eu quase ganhei, se não fosse aquele maldito pensamento... Traída por meus desejos secretos, me vi sendo obrigada a desviar o olhar. Aquilo era demais até pra mim.
 Ele sorriu como se a mesma coisa houvesse lhe passado pela cabeça, e eu murmurei um xingamento enquanto tentava conter um sorriso, inutilmente. Só que sua crise cinestésica parecia ter voltado mais uma vez, como naquela noite em que eu estava muito bêbada e precisando desabafar com alguém a raiva que eu estava tentando afogar com cerveja nas últimas horas. Sua mão agora tocava o meu queixo e me obrigava a levantar os olhos para encará-lo - e eu desejei estar bêbada de novo. Não estava habituada a deixá-lo me ver em um estado vulnerável, cheia de inseguranças com relação à...Bem, nós.
 E naquele momento, cara, eu juro... Juro que foi como se ele pudesse ver a minha alma através dos meus olhos. E foi o fim: a minha farsa havia sido desmascarada. Ele descobriu que aqui havia um coração e me beijou, como se já soubesse que ele estava ali, apenas esperando que alguém o notasse.


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