quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A página em branco




  A obsessão de todo escritor é uma pagina em branco do Word. Depois de checar todas as novidades na rede tudo o que nos resta é abri-la. É como um aviso para o cérebro: “Ei, é hora de produzir! Comece!”.
  Nessa mentalidade, podemos passar vários minutos – o que parecem horas – diante da branquidão daquela folha, apenas esperando que algo seja escrito. Pode ser qualquer coisa, uma frase, uma receita, uma história. Tudo o que precisamos é preenchê-la, por quê? Porque dá gosto fazer isso.
  Estamos comprometidos com nossas almas a escrever coisas realmente significantes. A estória que almejamos escrever é nossa paixão platônica até que seja terminada. Por ser uma paixão, não esperamos nada em troca. Queremos muito que vejam e compreendam nossas palavras, porque superficialmente adoramos os elogios, as críticas, os xingamentos. Adoramos a atenção que é dada a elas.
  Porém, acontece também que vistas ou não, aquelas palavras enchem o espaço vazio que existe em cada um de nós – seja ele pequeno ou grande. É a terapia dos desconsolados, dos duros, dos românticos e dos entediados. Nos mantém a salvo da insanidade apesar de nos sentirmos tentados a experimentá-la, mas nos deixa saborear o gosto das loucuras um pouquinho de cada vez pra não ficarmos viciados em sua doçura ou acabarmos caindo nos braços da amargura.
   A página em branco também é uma tortura. Quando somos invadidos pelo medo da falta de inspiração crônica pensamos em como as coisas poderiam ser diferentes. Dentro de nós tudo seria mais quieto, preto e branco e áspero. É desesperador do ponto de vista literário.
   Nossa missão é tocar os corações, mas só fazemos isso quando o primeiro a ser tocado é o nosso. Por isso a pressão não ajuda. Muito pelo contrário. Ela tira a espontaneidade que transforma um amontoado de frases em um belo texto. Deixa tudo sem sal, sem gostinho de quero mais.
   O que movem as palavras que tocam no coração das pessoas – que fazem chorar, rir e se arrepiar – é aquela paixão avassaladora. Como um casal de amantes se esquece do mundo em seus momentos de prazer, nos refugiamos no deleite de criar e inspirar.
   E tudo porque amamos o que fazemos.

Daniela Souza não teve lapsos momentâneos de falta de criatividade ao redigir este texto, ao som de "Love me do" - The Beatles.

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