Saio com o coração na
mão, a cabeça transbordando de raiva e a língua afiada para dizer tudo o que
penso naquele momento, mas não o faço porque sei que iria doer. Seria egoísta
de minha parte, e logo depois eu seria consumida pela catastrófica onda de
arrependimento que tiraria meu sono. E após lutar contra o meu orgulho,
quando decidiria me desculpar, teria que tolerar mais uma vez o seu silêncio.
Me pergunto se sou
culpada por tamanha distância entre nós. Será que foi a falta do afeto
exagerado que os outros transmitem a seus filhos? Por anos não o cumprimentei
com beijos no rosto, não obtive o hábito de abraçar-lhe o tempo todo, não
conversei sobre o que sentia. A única coisa que fiz foi agradecer pelos
presentes de aniversário, me desculpar por coisas que havia feito de errado e
lhe abraçar timidamente nas datas especiais.
Posso ser uma pessoa
horrível por isso. Tive mais intimidade com estranhos do que com você durante
toda a vida. Agora fico aqui com uma pontinha tímida de inveja da relação dos
outros, desejando secretamente ser amorosa o bastante para compensar os anos de
frieza, os risos perdidos e as palavras não ditas. Mas parece meio tarde para
algumas coisas. Herdei alguns traços de frieza e preciso conviver com aqueles
que são irreparáveis.
Com isso aprendi como
não quero ser no futuro. Me esforcei para ser o mais carismática e amorosa
possível, não usando o sofrimento que vivi sozinha no passado como desculpa. E
continuo me esforçando para dialogar, até mesmo agora que meu coração não passa
de um fiapo de remendas mal feitas. Uma esperança que pode muito bem ser vã.
Enquanto isso, fico
aqui esperando que essa tal esperança nunca se vá. Seria como mergulhar num
abismo de tristeza. Essas palavras me partem o coração, e o único motivo de
dizê-las aqui é por saber que de fato nunca conseguirei dizer olhando em seus
olhos. Parece que não fui criada para demonstrar tanto sentimento. Isso
precisarei aprender por conta própria.
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