segunda-feira, 5 de novembro de 2012

REHAB para as boazinhas


 Cultivar o ódio não é um de meus passatempos favoritos. Assim como a intriga, gosto de mantê-lo longe de mim, o bastante para me afastar também de qualquer possível desejo de vingança. Por um lado, gosto desse meu lado pacífico. Sabe como é. Faz bem pra alma, evita o stress e quem sabe até umas ruguinhas. Só que evitá-lo demais me fez evitar também o confronto, e isso me tornou insuportavelmente "boazinha".
  Não é nada legal ser a boazinha da história. Vai por mim, são 19 anos de experiência. A boazinha é aquela que sempre se fode, e o único consolo que tem é um maldito tapinha nas costas.
  Nós, boazinhas, não gostamos de ser assim. Internamente, sonhamos em nos tornar mulheres fatais e quando começamos a caminhar em direção à esse caminho acabamos causando mais estragos do que aquelas que já acreditam ser assim. Possivelmente isso é motivado pela falta de experiência, de tato para lidar com as situações. Ás vezes, indo com muita sede ao pote acabamos sendo terrivelmente brutas como se necessitássemos disso para compensar os anos de abuso de nossa condição de boas samaritanas. É normal logo depois sentirmos a consciência pesada e passarmos horas a fio refletindo a respeito da humildade recíproca que deve haver entre homens e mulheres.
  Depois de um tempo deixamos isso de lado. A vida começa a nos dar mais do que tapinhas nas costas e passa a nos fazer ter que lidar com os pés na bunda, os tapas na cara violentos - de uma forma figurativa, é claro - e as palavras cortantes. Nosso senso para sacar mentiras  fica divinamente apurado e acabamos identificando-as mais facilmente do que antes, quando tudo soava como música erudita aos nossos ouvidos.   Algumas não aguentam tamanha pressão e cedem à brutalidade. Tornam-se feministas natas, donas da verdade, manipuladoras inescrupulosas e destruidoras de corações.
  Eu, querido leitor, fiquei no meio disso. Minha personalidade pacífica continua insistindo em fazer parte de mim, o que não é de todo ruim. Gosto da sensação de ter sentimentos e conseguir respeitar o das outras pessoas. É como conseguir manter o lado que vale a pena de nossa humanidade - a sua essência. Por outro lado, adquiri o tal sensor de mentiras, aprendi certos truques de manipulação, identifiquei - com muita dificuldade - aquilo que merece ser priorizado e virei mestre na arte de soltar um belo sorriso quando esperam de mim uma careta.
  Foram os tapas na cara, as quedas livres diante das decepções e as rasteiras dadas no decorrer de uma vida inteira que foram me ensinando a sobreviver na selva de pedra que são as relações humanas. Passou a ser óbvio que só aprendemos a ser fortes quando não temos outra escolha diante das adversidades. A gente acaba deixando o instinto falar mais alto, e ele nem sempre pode mostrar ser o modelo de pessoa perfeita que esperam de nós.
  Quando abri mão dos tapinhas nas costas e do posto de boazinha acabei me descobrindo. Aquela pessoa que eu conhecia apenas internamente não era uma ilusão, era eu. Ela só precisava de um pequeno - no caso, grande - impulso para sair por aí mudando a vida das pessoas através de suas palavras e atitudes.
  Agora, mais uma vez percebo de uma forma dolorosa para o ego que caí novamente no conto do vigário. Ironicamente, é justamente esse tipo de decepção que me faz ir pra frente, e me ensina uma nova lição: Se pegar a estrada que te levará a ser uma mulher fatal, nunca olhe pra trás. Apesar de parecer agradável, aquela garota boazinha lá atrás já foi o seu pior pesadelo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei o Texto. Acredito que você tenha tido um ''despertar fatal'' na quinta série. O que fez com que você tomasse coragem - e um pau também - e se rebelasse contra aquela Ogra da escola.
Compartilho do seu sentimento. Após 18 anos, aprendi que ser bonzinho DEMAIS não tem lá suas vantagens. O ideal é um meio termo.
Parabéns pelos textos.